Friday, October 26, 2007

O meu cão no elevador



O meu cão no elevador
Cão! Porta-te bem. Então?
Estamos no elevador e temos companhia.
Não vês que o vizinho que entrou no décimo andar mostra receio?
Bem sei que não sabes que impões respeito à freguesia.
És um cão corpulento, de caninos afiados,
Embora não saibam (estes desgraçados)
E é melhor que se não saiba bem
Que esses dentes não fazem mal a ninguém.
É esta a conversa que eu e o meu cão temos.Conversa sem palavras, já se vê,
Sempre que descemos
No elevador.
O meu cão olha para mim, do fundo dos seus olhos castanhos,
Líquidos e profundos como os oceanos.
E com toda a descrição,
encosta-se o mais que pode ao corrimão
Da caixa elevatória
E diz-me, através do olhar (a tal linguagem que falamos entre nós),
Que culpa tenho eu de parecer feroz?
Então, nesses actos,
Aperto-lhe a mão sobre a coleira- Não vá ele ceder à tentação
De lamber os sapatos
Do vizinho do décimo andar
E ele tomar, como sinal de agressão
Essa intenção.
Ou então,
As crianças do oitavo
Que, mal entram e o vêem, se refugiam no canto oposto, em comoção
Regurgitando exclamações de medo e admiração(HO TAI CHEK!), dizem, entre si, em chinês.
E o meu cão olha para mim.
E, diz-me assim (através do olhar),
Como tu vês...Eu nem sequer me movo.
Que tal?...É só para não te deixar mal, não fazer asneira.
Por isso, escusas de apertar tanto a tua mão
Na minha coleira.
Dás-me cabo da garganta neste calor de Verão!
Bem sabes que não mordo, estou no meu cantinho
E qualquer altercação
Com o vizinho
Seria a última coisa que quereria.
Sabes bem que não tenho raiva nem assomos rompantes!...
E incomoda-me esta gritaria...
Nesse momento, sinto o elevador parar.
Acto contínuo, abro os dedos da mão,
Solto a coleira que o asfixia,
E o meu cão,
A arfar,
Sai como uma flecha quando a porta do elevador se abre no terceiro andar
Onde sabe que o carro está estacionado,
Pronto para nos levar a passear
Aos dois sozinhos
Ao ar livre, longe do incómodo dos vizinhos.

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