Tuesday, June 22, 2010

Ibn Amar

Ibn Amar era um jardim de nós dois


Ibn Amar era o poeta algarvio

Que ficou para a posteridade

Preso à história do Arade

Preso à corrente de um rio

Porém amor para nós

Ibn Amar é uma história

Qua passa à margem de rios

Muito longe de navios

E de brumas

De odisseias colossais

De escunas expostas aos ventos

De tormentos.

Ibn Amar foi simplesmente belo

Um, pequeno triangulo

Singelo

Entre ruas

Coincidentes

Incidentes

Que geraram em nós o verbo começar

E assim o poeta Ibn Amar

Foi afinal apenas a recordação boa

Do que nos aconteceu um dia na cidade de Lisboa

João Guedes. 31/05/03


Abu Bakr Muhammad ibn 'Ammar, nasceu em Sannabus (possivelmente Estômbar), perto de Silves, em 1031 e morreu em 1084. Discípulo do grande gramático al-A'lam, estuda em Córdova e Silves.

Mais tarde torna-se amigo dilecto de al-Mu'tamid que, ascendendo ao trono de Sevilha, o nomeia, entre outros cargos, governador de Silves, da qual foi o maior vate luso-árabe.

Ode pequena a uma atleta conhecida

Cão atleta em repouso merecido


E setas

E cronómetros

E quartos

E metas

E atletas

Por centímetros

Por milímetros

Corredores de fundo

Vencemos ao segundo

Primeira palma

Do pé.

Arfa a alma contente

Da atleta

Quando corta a meta

Dor física

Da vencedora

Corredora

De fundo.

Quem é?

Primeira palma

Do pé.

Nós e ela somos

E choramos e vemos

Laranja feita de gomos

Na bancada

Separada

A separar

Pelo polegar

E a atleta a arfar

Triunfadora

Desfraldadora

De Bandeira

Vencemos

Vamos celebrar

A nossa atleta

Cortou a meta

Muito bem!

Venceu ela, e viva Portugal?

Acho que nessa competição mundial

Vista pela televisão

Pelo Mundo todo

E mais por mim e pelo meu cão.

Comovi-me.

Ele não!

É que ele

Animal nascido atleta de profissão.

Corre que se farta como todos os da sua raça

(durante o dia quando pode, claro!)

Mas como é daltónico (estão a ver)

Não consegue perceber

O que se passa nas seiscentas e tal linhas de cores que compõem um ecran

De televisão.

Numa transmissão directa pela manhã

E por isso foi que

Quando a nossa atleta

Cortou a meta

Eu deitei uma lágrima de um olho

Ele esticado no tapete não

Apenas tremelicou o sobrolho

Esticou a pata e ignorou

E perante um tal evento nacional

Então, então!

Escondeu ainda mais o focinho na almofada e mais alto ainda ressonou

No chão.

Que falta de sentido pátrio tem o meu cão!

João Guedes

Maio 2008

Dramas esquecidos nas memórias do Douro

O penhasco

barão de Forrester
e a minha impressão do Douro: -

Tenho no Douro a impressão de estar vazio.

Persistente esta sensação aguada

Liquida, alcandorada

Em mim

Lá no fundo, bem no fundo da ravina

Deve ser frio

No Inverno

Mas hoje que calor!... Água é coisa que não há

Não se vê uma fonte. Que inferno!....

Esta terra é escura de cor indefinida

É tudo denso aqui. É tudo exagerado!

A morte o trabalho, o clima, a vida.

Naquela curva do rio

Morreu o Barão de Forrester

Numa batalha na ponte de um navio contra o inimigo nas ondas do alto mar?

Não!

Ali não era a Mancha, nem havia espaço entre alcantis para Trafalgar.

Foi num barco rabelo no caminho de regresso vindo de passear

O barão afogou-se em água nas terras do vinho

Para salvar a namorada que descuidada caiu da amurada

Pelos baixos do Pocinho.

Nessa mesma altura atavam o escrivão Guedes

À cauda de um cavalo e arrastavam-no pela vila de S. João da Pesqueira

Morreu ignobilmente

Dessa maneira

Na guerra civil

Injustiçado ingente

Na guerra civil

Em crucial ponto

Mas o que aconteceu ao escrivão

Não merece menção, nem influiu no curso da Nação

Morreu e pronto!...

São pequenas tragédias da história

O escrivão Guedes morreu em contraponto

E a memória conserva apenas a do barão.

Forrester morreu a salvar a sua dama

Depois de um pic-nic

No meio do rio entre falésias a pique.

A sua espada permanece encravada entre duas rochas de granito

A comemorar o feito

Hoje resta um ferro enferrujado

Submerso nas águas de uma barragem que rememora o drama.

Mas neste leito do Cachão da Valeira há um infinito.

Há um infinito lamento

Um drama mais ingentes, um dilema mais profundo

Que fica entre o que é e o que não é lembrado

Nas tragédias do Mundo.


João Guedes. 1975

Alcantis e frontões



Longos penhascos cinzentos

Em surdas cogitações

Pendurados em tormentos

Dos alcantis em frontões

Socalcos escalavrados

Monte acima, monte acima!

Os caminhos depredados

Nem uma fonte ou uma mina?

Vinhedos dependurados

Cepos velhos carcomidos

Sobe e desce em alquebrados

O Douro de tempos idos

Há colmeias com abelhas

Socalcos ali acolá,

Há casas com loisas por telhas

Mas sombras é que não há!

É este o Douro assente

Assente em pedra xisto

Vida má, vida de Cristo

Douro velho eternamente.

João Guedes 1975

A Lua a Madrugada e o Oriente

A inspiração vai-se sumindo


De mim a inspiração vai-se sumindo

Fazer poemas é cada vez mais raro

O Mundo é cru estúpido, mal vindo

E eu neste momento da vida o passo paro.

A madrugada surge devagar a Oriente

Perdi acordado uma noite inteira.

(por obrigação estive a escrever prosa para um jornal)

Olho de soslaio para a janela ingente

Através da qual o Sol se esteira.

Creio que o artigo me saiu menos mal

Ao menos que me paguem pelas horas que gastei

A juntar palavras e exarar opinião.

Mas essa perda de tempo não é a questão.

O problema sou eu.

O nascer do dia surge

Logo a seguir ao lusco-fusco - madrugada bela

E há um rio afluente

E há um assobio de pássaro - ouço além uma cantarela.

Será uma cigarra lírica, ou apenas o ruído prosaico

Do quotidiano que é sempre onomatopaico.

E o Mundo, sempre de certo modo ausente

Na sonolência ligeira

Que me sobrevem

Torna-se mais uma vez presente.

O que me ficou verdadeiramente

Por fazer não o digo a ninguém.

Perdi o meu passeio.

Ontem devia caminhar, mas não o fiz

Preferi gastar uma meia - noite de tempo em falaz seio

E casar por momentos com uma lua de verniz

Adormeço.

Adormeço a meia-tarde!

Vejam lá!

A inspiração sumiu-se

Já não me apetece poetar

Mas passear

No onírico mundo infindo

Por onde posso imaginar.

Que durmo e não estou e não me culpo por tardar

E me ter esquecido ontem de passear

(passear meia-hora por dia, pelos menos, é o que o meu médico recomenda para a minha doença)

Mas de repente acontece.

Acordo!

A sesta foi-se e o Sol arde

E eu ainda meio a dormir naquele seio

Pintado de branco giz

Verifico que foi apenas um passeio

Que não fiz.

Lavo a cara. Olho para o relógio.

Estarei atrasado para entrar a horas no emprego?

Não. Não tenho horário fixo.

Há que sossegar!

O mundo foi-se num ápice e já são outra vez horas de jantar

Que mundo este o de imaginar

João Guedes

Sunday, June 20, 2010

A minha homenagem pessoal a Saramago


Preguiça e afazeres (principalmente preguiça) levam a que este blogue que mantenho não seja actualizado tanto quanto merecia. Mas hoje apesar de ser fim-de-semana e ter ido para a praia (a praia “chateia-me” por que fico sempre com a sensação de que nessas horas de natação e papo para o ar deixo sempre por fazer alguma coisa importante. Claro que depois rememoro a minha agenda virtual e verifico que na verdade não perdi tempo nenhum. Mas é sempre assim) e ter tido de “aturar” os filhos que acharam que me deviam homenagear por ser “Dia do Pai” na China - por mor da tradição e assim...- e me invadiram o castelo ainda por cima acompanhados da progenitura, ou seja as minhas netas pequeninas e irrequietas que me destroem sem respeito nem complacência a rotina, os “bibelots” (principalmente os que se partem) fazem desenhos nas fotocópias do Arquivo Histórico e nas gravuras que guardo secretamente (?) numa gaveta especial, mas cujo segredo conhecem e fazem gala em descobrir mal cá chegam a casa (como se descobrissem o tesouro pirata do capitão Morgan). Isto apesar de cá ter um contentor infindável de brinquedos comprados especifica e cientificamente para entreter as suas pequenas idades. Os pedagogos não sabem do que falam nas “posologias dos brinquedos” que constam nos rótulos das caixas. “Este brinquedo é específico para crianças entre os 3 e os 5 anos de idade”, diz a posologia no rótulo da caixa. É mentira evidente. Do que as minhas netas gostam é de brincar com as minhas canetas de estimação, o meu medidor de diabetes (objecto electrónico altamente sofisticado que custa um dinheirão) os bonecos mal amanhados que trouxe do Myanmar. Enfim um pandemónio... E o pior é que em vez de correr a família à bofetada não! Ainda acho graça.

Ser avô é negação da moral romana e antiga do “pater famíliaes”. Mas só agora o descubro. Certamente que já não vou a tempo de corrigir a moral vigente e de evitar o olhar de soslaio (meio escandalizado) de meus filhos que se tivessem o atrevimento de me tocar nas canetas iam para o “quarto escuro”. Felizmente que quando meus filhos eram crianças ainda não fazia colecção de canetas e o quarto escuro não passava de uma ameaça igual à do “homem do saco”.

Mas tudo isto para dizer apenas que retomo este blogue para deixar um “post” de homenagem (e já são 4 horas da manhã) a José Saramago.

Perde-se um grande escritor de que li alguns livro: - “Levantado do Chão”, “Memorial do Convento” “ O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Todos Os Nomes”, “Ensaio sobre a Cegueira”, “As intermitências da Morte”. Foram estes os que dele li.

Caim e o Evangelho não li, nem tenciono ler. Não porque tenha alguma coisa contra a temática que tanta polémica suscitou, mas apenas porque não me interessa o tema. Se calhar um dia qualquer quando estiver a gastar tempo na praia de papo para o ar e sem nada para fazer talvez os leia. De outro modo não me parece que o faça. Aliás contra a igreja católica já me deleitei e continuo a deleitar-me com a “Velhice do Padre Eterno” e “A Morte de D. João” poemas que para além de tratarem do mesmo assunto fazem-no em verso e deixam-nos extasiados perante a beleza de Deus, do Universo e a sordidez do Mundo em rimas tão harmoniosas que parecem melodias. Eram panfletos? Pois eram! mas eram bonitos e profundos.

Saramago pegou no tema em prosa. Estará literariamente bem feito (não sei porque como disse não li), mas não tem a melodia de Junqueiro e essencialmente surgiu a destempo. A Igreja de hoje está longe de ser a de há um século. E os combates de hoje não são os desses tempos republicanos estrénuos. O mundo mudou!

Mas rendo aqui, fora de horas também, a minha homenagem a José Saramago.