Sunday, February 27, 2011


E agora um poema que não é meu, mas que faz chorar até às lágrimas.
É de António Nobre, um poeta que passava as férias de Verão na aldeia em que nasci e que se chama S. Cosmado.


MEMÓRIA

À Minha Mãe
Ao meu Pai

Aquele que partiu no brigue Boa Nova
E na barca Oliveira, anos depois, voltou;
Aquele santo (que é velhinho e já corcova)
Uma vez, uma vez, linda menina amou:


Tempos depois, por uma certa lua nova,
Nasci eu… O velhinho ainda cá ficou,
Mas ela disse: - «Vou, ali adiante, à Cova,
António, e volto já…» - e ainda não voltou!


António é vosso. Tomai lá a vossa obra!
«Só» é o poeta-nato, o lua, o santo, a cobra!
Trouxe-o dum ventre: não fiz mais do que o escrever…


Lede-o e vereis surgir do poente havidas mágoas,
Como quem vê o Sol sumir-se, pelas águas,
E sobe os alcantis para o tornar a ver!

(António Nobre)


Quando nasci comecei a perder tempo (acho eu!)



Versejar é perder tempo quando não há tempo a perder.

Por exemplo

Ainda agora me atrasei

E falhei
Irremediavelmente e para meu mal

A primeira notícia do telejornal.

Tudo porque estava ingenuamente

Sobre estes versos a preguiçar

Antes estivesse a dormir.

Sim a dormir o tempo não se perde

Nem se perde, por exemplo, o autocarro.

Quando se dorme dorme-se e pronto.

Dormir é uma condição da vida

E pelo menos sonha-se, o que não é mau,

Principalmente quando se sonha com coisas boas.

Agora versejar?

É dormir acordado

E arriscamo-nos todos, neste caso

A dar azo

A que nos digam: - Estás a dormir, ou quê?

Olha que o jantar arrefece.

Não se pode responder a quem tem os pés bem assentes na terra

A quem nos diz que perdemos o telejornal e o autocarro e que a comida arrefece

Porque estávamos a perder tempo a fazer versos.

Ainda se estivesses

A fazer as contas do IRS

Vá lá...

Mas versos?

Olha que também arrefece o chá

Sim também o tal que gostas tantos de tomar

Depois de jantar

Vai dormir João

Gostas mais de sonhar do que de viver.

E foi então

Que nessa ocasião

Eu e o meu cão

Adormecemos.

Ele no sofá

E eu no chão

J.Guedes

Friday, February 25, 2011



E assim me enterrei

Na neve branca com que subitamente me deparei

quando saía de casa.

Tinha cinco anos? Não sei.

Mas a verdade é que feliz de mim me lancei

Como num golpe de cartas nessa vaza

Quando era criança feliz

E se me quebrou a asa

De anjo pequenino.

Afoguei-me, ofeguei-me, cansei-me.

Que coisa instante bela irrepetível

Submergir e depois emergir no meio da neve

Leve.

Que coisa feliz!...

Vós que nasceis

noutros tempos e noutras latitudes

Nunca sabereis

o que foi afogar-me

Na leveza leve da neve

Nesse nevão de criança de mil novecentos e cinquenta e seis.

Tinha cinco anos de idade

E na verdade

Ainda hoje não me lembro bem se foi assim, ou não

Enfim!...

Mas recordo que tinha cinco anos de idade

Isso é atestada autenticidade

Nos registos da meteorologia oficial e da neve profunda

Leve

Que caía sem registos nem vistos

Como a neve

Que livre se reconhece em flocos e cai como deve

Segundo as leis da física

E onde me enterrei e me afoguei e esbracejei

E já lá vão, anos e arcanos

tempos que levamos

Sem saber se foi de facto assim, ou não

Sim! Passaram décadas e anos

Passaram tantos anos!

E assim.

Assim!...

Desses tempos, nascentes

E esmorecentes

Me deportei e departei

Afinal todos, dia a dia, de nós próprios nos zarpamos

de absortos portos.

Do que recordo ao certo já não sei.

Que aborrecimento é esta coisa de passarem os anos.

J. Guedes

Domingo 26 de Dezembro de 2010



O tio Arnaldo trata disso tudo

Como sempre tratou

As lágrimas quedam-se com ele em ângulo agudo

Convergente

Por aqui estou

Presente!

Afirma sem dizer como se fosse um surdo mudo

O Tio Arnaldo quando tudo falta sempre trata de tudo.

Que heroicidade esta de meu irmão

Verter as lágrimas de todos nós

Sozinho

Sublimemente mudo

Num cadinho

De ouro

Besouro

Coerente

Sempre consciente

Sem dizer nada na vida corrente

de todos nós

Trata do que deve como as mós

Dos moinhos antigos sem se dar por elas

Rodam, rodam e alimentam

De farinha bocas que não sabem que têm fome

E a família vive

E a família come

E o mundo gira.

Incoerente informe

E acorda e dorme.

Foram-se os pais, os tios e os avós.

Falta alguém?

Faltamos todos nós

Esmorecem as velas

Mas o Tio Arnaldo não.

Do trabalho obreiro

Pega com uma mão

Uma agonia

E com a outra uma exactidão

Do dia a dia

Sobre todos os chorados mortos temos que sobreviver

A vida é assim que se há-de fazer?

14 Janeiro 2011-01-14

J. Guedes

Pequena variação sobre o poema anterior


O Meu cão realista


Dizem que os cães vêm e pressentem

Serão animais místicos esses cães inventados pela literatura?

O meu não vê nem pressente nada.

Acorda, de madrugada

Brinca cheira, ladra

Abana a cauda

Durante o dia, enquanto o dia dura

E, sem dizer nada

(mal educado, pode dizer-se) pelos padrões do dono

enrosca-se em sono

Bem profundo sono, mal termina

E finda

A ultima jornada.

E fica no abandono

Do seu palácio sofá da sala de jantar

Pronto para acordar

Feliz no dia seguinte.

Às vezes cedendo, eu, ao que se diz

Ser dos cães presciência

Em intervalo de serão

Entre a leitura de um livro e olhadela de soslaio à televisão

E do mundo real em momentânea ausência,

Falo com ele sobre filosofia.

Mas ele abre os grandes olhos pestanudos

Fixa-me e responde que prefere os filósofos mudos

E deixa-se de novo dormir.

Pelo que vejo, quotidianamente,

(ou seja de quando em vez)

O meu cão não vê nem pressente.

Limita-se, a ser ele

Pessoal e com próprio nome mês atrás de mês (já lá vão anos).

Reage, naturalmente, à sede ao frio e à fome

Como qualquer ser vivo

O meu cão

Que encaro sempre como o último dos “moicanos”

Que dorme junto à minha mão

No sofá.

Que não sente nem pressente

Mas àh...!...

Quando um ruído o desperta

Aí vai ele à descoberta

Levanta-se grave

Estica as patas.

Eu, expectante (nessas alturas), olho-o de soslaio

Entendeu alguma manifestação

metafísica de ocasião

Que me escapou?

Terá a doença da velhice e ter-lhe-há dado algum final desmaio?

Não!

Para o meu cão

Não há metafísica, nem sentimentos tolos como depressão

Saudade, ou mágoa

O meu cão

levantou-se,

Espreguiçou-se,

Esgueirou-se pela sala

E foi apenas beber água.

Que filósofo colossal

É sempre nessa repetida ocasião

O meu cão

Que não sente nem pressente

Aliás tem cataratas e já ouve mal

E mal sente

A gente

vizinha que se extravasa

Em ruídos quotidianos.

Interessa-me lá o que se passa fora de casa! (Diz ele)

Já levo tantos anos

De te guardar

Meu dono!

Já bebi a minha água

Deixa-te de imaginar

Quero regressar ao sono

É fora de horas

Vê bem.

Tudo dorme

Apaga a luz e vai dormir também.

J. Guedes

25 Janeiro 2011


Que coisa extraordinária é o meu cão.

Não faz nada.

Dorme, come e cala.

Eu não!

Ou nem sempre talvez...

Comigo é vezes sim, outras não.

Um compromisso de ocasião.

Para o meu cão

Não!

É sempre assim.

Tem sede vai beber

Tem fome

Come

Sou eu que lhe dou

A água e a ração.

E ele nem sequer agradece

A esta minha permanente disponibilidade.

Responde-me ele

(Ou eu próprio a mim).

- A vida é assim! gostas de mim!

E eu, evidentemente dele é verdade.

E é tudo.

Não me dás água e pão por caridade

Dás-me simplesmente

Sem interrogações,

Nem obrigações

Inúteis

Fico com o que queres, ou o que reste (principalmente quando não há dinheiro)

Ossos, ou migalhas, não importa. Não sou, como sabes, interesseiro.

O que interessa é que gostas de mim.

Eu de ti gosto obviamente.

Por isso tens-me por aqui sempre presente

A abanar a cauda e a ladrar sem tino

A recordar-te o tempo em que eras pequenino

Quando não pensavas, verdadeiramente, em nada.

É como se apresenta a vida para nós os dois.

Eu que sou velho e cão

Sou sempre pequenino como tu ainda és.

O Mundo para ti será sempre uma charada.

Para mim não.

Não te esgotes em especulações fúteis

Nem em quês e porquês.

O amor nasce connosco de enxurrada

Mas limpa e aclara as coisas úteis

Quando nas emoções

se intrometem razões urgentes, ou simplesmente é preciso

Estás a ver?

E principalmente as que são fundamentais para viver.

Por muito que tu penses – acrescenta o meu cão -

O Mundo é sempre justo, racional, conciso.

Deus surge inevitavelmente e sempre na ocasião

Para resolver o que é preciso.

Não te preocupes. Não és o meu patrão

És o meu dono e íntimo amigo

As dívidas que não tenho para contigo

Não tas pago sabes bem!

As que tens, com outros deixa lá que outros as pagarão.

Vai dormir. É tarde

Amanhã tens que trabalhar

Eu não

Durmo e acordo quando calha

Como compete a qualquer cão de guarda ou de vigia

Tu, meu dono, não.

Para ti a vida é umas vezes um drama outras uma elegia,

Ou apenas novo dia que se aguarda

E resguarda.

Para mim não

A vida é unicamente o momento exacto

Em que chegas a casa

E brincas comigo

Para mim não existe tempo meu amigo

Tudo se extravasa

Em amor e alegria nesse pequeno acto

De ocasião

Nesse momento de lucubração

O meu cão

Subtil se esgueira para o quarto enquanto visto o pijama

Deita-se de quatro no tapete

E eu na cama.

Encerramos nessa altura a cortina do mundo

Eu e o meu cão anónimos, felizes, caímos os dois em sono profundo.

J. Guedes

25 Janeiro 2011

Monday, January 24, 2011

Eu nas horas vagas e o meu cão filósofo


Dizem que os cães vêm e pressentem

Serão animais místicos esses cães inventados pela literatura?

O meu não vê nem pressente nada.

Acorda, de madrugada

Brinca cheira, ladra abana a cauda

Durante o dia, enquanto o dia dura

E, sem dizer nada

(mal educado, pode dizer-se) pelos padrões do dono

enrosca-se em sono

Bem profundo sono, mal termina mais uma jornada.

E fica no abandono

Do seu palácio sofá da sala de jantar

Pronto para acordar

Feliz no dia seguinte.

Às vezes cedendo, eu, ao que se diz

Ser dos cães presciência

Em intervalo de serão

Entre a leitura de um livro, olhadela à televisão

E do mundo real em momentânea ausência,

Falo com ele sobre filosofia.

Mas ele abre os grandes olhos pestanudos

Fixa-me e responde que prefere os filósofos mudos

E deixa-se de novo dormir.

Pelo que vejo, quotidianamente,

(ou seja de quando em vez)

O meu cão não vê nem pressente.

Limita-se, a ser ele

Pessoal e com próprio nome mês atrás de mes (já lá vão anos).

Reage naturalmente à sede ao frio e à fome

Como qualquer ser vivo

O meu cão

Que dorme junto à minha mão

No sofá.

Que não sente nem pressente

Mas àh...!...

Quando um ruído o desperta

Aí vai ele à descoberta

Levanta-se grave

Estica as patas.

Eu, expectante (nessas alturas), olho-o de soslaio

Entendeu alguma manifestação

metafísica de ocasião

Que me escapou?

Mas não.

Para meu cão

Não há metafísica, nem sentimentos tolos como depressão

Saudade, ou mágoa

O meu cão

levantou-se,

Espreguiçou-se,

Esgueirou-se pela sala

E foi apenas beber água.

Que filósofo colossal

É sempre nessa repetida ocasião

O meu cão

Que não sente nem pressente

Aliás tem cataratas e já ouve mal

E mal sente

A gente

vizinha que se extravasa

Em ruídos quotidianos.

Interessa-me lá o que se passa fora de casa!

Já levo tantos anos

De te guardar

Meu dono!

Já bebi a minha água

Deixa-te de imaginar

Quero regressar ao sono

É fora de horas

Vê bem.

Tudo dorme

Apaga a luz e vai dormir também.

J. Guedes

25 Janeiro 2011

Saturday, January 15, 2011


E agora apenas uma fotografia de Macau. A torre e o pôr do Sol

O meu cão e Guerra Junqueiro

Eu não sou o pintor diletante de Junqueiro. Mas acho que primeiro está de quem se gosta muito. Os pais, os filhos os netos, os avós. Todos são todos nós.
Mas o meu "Fiel" dos versos de Junqueiro já está velhinho e por isso está primeiro.
Gosto tanto dele! (é preciso exclamar). E ele, fiel, redigiria naturalmente o poema que o poeta redigiu se soubesse falar. Mas antes de tudo e mais do que tudo acho que é preciso amar.
Junqueiro soube sublimar, neste contexto, o panteão de Deus.
Aqui o deixo para quem queira avaliar.
O génio de um poeta ímpar e a foto do meu cão (igualmente ímpar), "que faz "hão, hão" e é bom amigo como os que são".
O meu cão


FIEL
(Um poema de Guerra Junqueiro. Conto poético. Reflexão).

Na luz do seu olhar tão lânguido, tão doce,
Havia o que quer que fosse
D’um íntimo desgosto :
Era um cão ordinário, um pobre cão vadio
Que não tinha coleira e não pagava imposto.
Acostumado ao vento e acostumado ao frio,
Percorria de noite os bairros da miséria
À busca dum jantar.
E ao ver surgir da lua a palidez etérea,
O velho cão uivava uma canção funérea,
Triste como a tristeza oceânica do mar.
Quando a chuva era grande e o frio inclemente,
Ele ia-se abrigar às vezes nos portais ;
E mandando-o partir, partia humildemente,
Com a resignação nos olhos virginais.
Era tranquilo e bom como as pombinhas mansas ;
Nunca ladrou dum pobre à capa esfarrapada :
E, como não mordia as tímidas crianças,
As crianças então corriam-no a pedrada.

Uma vez casualmente, um mísero pintor
Um boêmio, um sonhador,
Encontrara na rua o solitário cão ;
O artista era uma alma heróica e desgraçada,
Vivendo numa escura e pobre água furtada,
Onde sobrava o gênio e onde faltava o pão.
Era desses que têm o rubro amor da glória,
O grande amor fatal,
Que umas vezes conduz às pompas da vitória,
E que outras vezes leva ao quarto do hospital.

E ao ver por sobre o lodo o magro cão plebeu,
Disse-lhe : - "O teu destino é quase igual ao meu :
Eu sou como tu és, um proletário roto,
Sem família, sem mãe, sem casa, sem abrigo ;
E quem sabe se em ti, ó velho cão de esgoto,
Eu não irei achar o meu primeiro amigo !..."

No céu azul brilhava a lua etérea e calma ;
E do rafeiro vil no misterioso olhar
Via-se o desespero e ânsia d’uma alma,
Que está encarcerada, e sem poder falar.
O artista soube ler naquele olhar em brasa
A eloqüente mudez dum grande coração ;
E disse-lhe : - "Fiel, partamos para casa :
Tu és o meu amigo, e eu sou o teu irmão. -"

E viveram depois assim por longos anos,
Companheiros leais, heróicos puritanos,
Dividindo igualmente as privações e as dores.
Quando o artista infeliz, exausto e miserável,
Sentia esmorecer o génio inquebrantável
Dos fortes lutadores ;
Quando até lhe acudiu às vezes a lembrança
Partir com uma bala a derradeira esp’rança,
Pôr um ponto final no seu destino atroz ;
Nesse instante do cão os olhos bons, serenos,
Murmura-lhe : - Eu sofro, e a gente sofre menos,
Quando se vê sofrer também alguém por nós.

Mas um dia a Fortuna, a deusa milionária,
Entrou-lhe pelo quarto, e disse alegremente :
"Um génio como tu, vivendo como um pária,
Agrilhoado da fome à lúgubre corrente !
Eu devia fazer-te há muito esta surpresa,
Eu devia ter vindo aqui p’ra te buscar ;
Mas moravas tão alto ! E digo-o com franqueza
Custava-me subir até ao sexto andar.
Acompanha-me ; a glória há de ajoelhar-te aos pés !..."
E foi ; e ao outro dia as bocas das Frinés
Abriram para ele um riso encantador ;
A glória deslumbrante iluminou-lhe a vida
Como bela alvorada esplêndida, nascida
A toques de clarim e a rufos de tambor !

Era feliz. O cão
Dormia na alcatifa à borda do seu leito,
E logo de manhã vinha beijar-lhe a mão,
Ganindo com um ar alegre e satisfeito.
Mas aí ! O dono ingrato, o ingrato companheiro,
Mergulhado em paixões, em gozos, em delícias,
Já pouco tolerava as festivas carícias
Do seu leal rafeiro.

Passou-se mais um tempo ; o cão, o desgraçado,
Já velho e no abandono,
Muitas vezes se viu batido e castigado
Pela simples razão de acompanhar seu dono.
Como andava nojento e lhe caíra o pelo,
Por fim o dono até sentia nojo ao vê-lo,
E mandava fechar-lhe a porta do salão.
Meteram-no depois num frio quarto escuro,
E davam-lhe a jantar um osso branco e duro,
Cuja carne servira aos dentes d’outro cão.

E ele era como um roto, ignóbil assassino,
Condenado à enxovia, aos ferros, às galés :
Se se punha a ganir, chorando o seu destino,
Os criados brutais davam-lhe pontapés.
Corroera-lhe o corpo a negra lepra infame.
Quando exibia ao sol as podridões obscenas,
Poisava-lhe no dorso o causticante enxame
Das moscas das gangrenas.

Até que um dia, enfim, sentindo-se morrer,
Disse "Não morrerei ainda sem o ver ;
A seus pés quero dar meu último gemido..."
Meteu-se-lhe no quarto, assim como um bandido.
E o artista ao entrar viu o rafeiro imundo,
E bradou com violência :
"Ainda por aqui o sórdido animal !
É preciso acabar com tanta impertinência,
Que esta besta está podre, e vai cheirando mal !"
E, pousando-lhe a mão cariciosamente,
Disse-lhe com um ar de muito bom amigo :
"Ó meu pobre Fiel, tão velho e tão doente,
Ainda que te custe anda daí comigo."

E partiram os dois. Tudo estava deserto.
A noite era sombria ; o cais ficava perto ;
E o velho condenado, o pobre lazarento,
Cheio de imensas mágoas
Sentiu junto de si um pressentimento
O fundo soluçar monótono das águas.

Compreendeu enfim! Tinha chegado à beira
Da corrente. E o pintor,
Agarrando uma pedra atou-lh’a na coleira,
Friamente cantando uma canção d’amor.

E o rafeiro sublime, impassível, sereno,
Lançava o grande olhar às negras trevas mudas
Com aquela amargura ideal do Nazareno
Recebendo na face o ósculo de Judas.
Dizia para si : "È o mesmo, pouco importa.
Cumprir o seu desejo é esse o meu dever :
Foi ele que me abriu um dia a sua porta :
Morrerei, se lhe dou com isso algum prazer."

Depois, subitamente
O artista arremessou o cão na água fria.
E ao dar-lhe o pontapé caiu-lhe na corrente
O gorro que trazia
Era uma saudosa, adorada lembrança
Outrora concedida
Pela mais caprichosa e mais gentil criança,
Que amara, como se ama uma só vez na vida.

E ao recolher à casa ele exclamava irado :
"E por causa do cão perdi o meu tesouro !
Andava bem melhor se o tinha envenenado !
Maldito seja o cão! Dava montanhas d’oiro,
Dava a riqueza, a glória, a existência, o futuro,
Para tornar a ver o precioso objecto,
Doce recordação daquele amor tão puro."
E deitou-se nervoso, alucinado, inquieto.
Não podia dormir.
Até nascer da manhã o vivido clarão,
Sentiu bater à porta ! Ergueu-se e foi abrir.
Recuou cheio de espanto : era o Fiel, o cão,
Que voltava arquejante, exânime, encharcado,
A tremer e a uivar no último estertor,
Caindo-lhe da boca, ao tombar fulminado,
O gorro do pintor !

Tuesday, June 22, 2010

Ibn Amar

Ibn Amar era um jardim de nós dois


Ibn Amar era o poeta algarvio

Que ficou para a posteridade

Preso à história do Arade

Preso à corrente de um rio

Porém amor para nós

Ibn Amar é uma história

Qua passa à margem de rios

Muito longe de navios

E de brumas

De odisseias colossais

De escunas expostas aos ventos

De tormentos.

Ibn Amar foi simplesmente belo

Um, pequeno triangulo

Singelo

Entre ruas

Coincidentes

Incidentes

Que geraram em nós o verbo começar

E assim o poeta Ibn Amar

Foi afinal apenas a recordação boa

Do que nos aconteceu um dia na cidade de Lisboa

João Guedes. 31/05/03


Abu Bakr Muhammad ibn 'Ammar, nasceu em Sannabus (possivelmente Estômbar), perto de Silves, em 1031 e morreu em 1084. Discípulo do grande gramático al-A'lam, estuda em Córdova e Silves.

Mais tarde torna-se amigo dilecto de al-Mu'tamid que, ascendendo ao trono de Sevilha, o nomeia, entre outros cargos, governador de Silves, da qual foi o maior vate luso-árabe.

Ode pequena a uma atleta conhecida

Cão atleta em repouso merecido


E setas

E cronómetros

E quartos

E metas

E atletas

Por centímetros

Por milímetros

Corredores de fundo

Vencemos ao segundo

Primeira palma

Do pé.

Arfa a alma contente

Da atleta

Quando corta a meta

Dor física

Da vencedora

Corredora

De fundo.

Quem é?

Primeira palma

Do pé.

Nós e ela somos

E choramos e vemos

Laranja feita de gomos

Na bancada

Separada

A separar

Pelo polegar

E a atleta a arfar

Triunfadora

Desfraldadora

De Bandeira

Vencemos

Vamos celebrar

A nossa atleta

Cortou a meta

Muito bem!

Venceu ela, e viva Portugal?

Acho que nessa competição mundial

Vista pela televisão

Pelo Mundo todo

E mais por mim e pelo meu cão.

Comovi-me.

Ele não!

É que ele

Animal nascido atleta de profissão.

Corre que se farta como todos os da sua raça

(durante o dia quando pode, claro!)

Mas como é daltónico (estão a ver)

Não consegue perceber

O que se passa nas seiscentas e tal linhas de cores que compõem um ecran

De televisão.

Numa transmissão directa pela manhã

E por isso foi que

Quando a nossa atleta

Cortou a meta

Eu deitei uma lágrima de um olho

Ele esticado no tapete não

Apenas tremelicou o sobrolho

Esticou a pata e ignorou

E perante um tal evento nacional

Então, então!

Escondeu ainda mais o focinho na almofada e mais alto ainda ressonou

No chão.

Que falta de sentido pátrio tem o meu cão!

João Guedes

Maio 2008

Dramas esquecidos nas memórias do Douro

O penhasco

barão de Forrester
e a minha impressão do Douro: -

Tenho no Douro a impressão de estar vazio.

Persistente esta sensação aguada

Liquida, alcandorada

Em mim

Lá no fundo, bem no fundo da ravina

Deve ser frio

No Inverno

Mas hoje que calor!... Água é coisa que não há

Não se vê uma fonte. Que inferno!....

Esta terra é escura de cor indefinida

É tudo denso aqui. É tudo exagerado!

A morte o trabalho, o clima, a vida.

Naquela curva do rio

Morreu o Barão de Forrester

Numa batalha na ponte de um navio contra o inimigo nas ondas do alto mar?

Não!

Ali não era a Mancha, nem havia espaço entre alcantis para Trafalgar.

Foi num barco rabelo no caminho de regresso vindo de passear

O barão afogou-se em água nas terras do vinho

Para salvar a namorada que descuidada caiu da amurada

Pelos baixos do Pocinho.

Nessa mesma altura atavam o escrivão Guedes

À cauda de um cavalo e arrastavam-no pela vila de S. João da Pesqueira

Morreu ignobilmente

Dessa maneira

Na guerra civil

Injustiçado ingente

Na guerra civil

Em crucial ponto

Mas o que aconteceu ao escrivão

Não merece menção, nem influiu no curso da Nação

Morreu e pronto!...

São pequenas tragédias da história

O escrivão Guedes morreu em contraponto

E a memória conserva apenas a do barão.

Forrester morreu a salvar a sua dama

Depois de um pic-nic

No meio do rio entre falésias a pique.

A sua espada permanece encravada entre duas rochas de granito

A comemorar o feito

Hoje resta um ferro enferrujado

Submerso nas águas de uma barragem que rememora o drama.

Mas neste leito do Cachão da Valeira há um infinito.

Há um infinito lamento

Um drama mais ingentes, um dilema mais profundo

Que fica entre o que é e o que não é lembrado

Nas tragédias do Mundo.


João Guedes. 1975

Alcantis e frontões



Longos penhascos cinzentos

Em surdas cogitações

Pendurados em tormentos

Dos alcantis em frontões

Socalcos escalavrados

Monte acima, monte acima!

Os caminhos depredados

Nem uma fonte ou uma mina?

Vinhedos dependurados

Cepos velhos carcomidos

Sobe e desce em alquebrados

O Douro de tempos idos

Há colmeias com abelhas

Socalcos ali acolá,

Há casas com loisas por telhas

Mas sombras é que não há!

É este o Douro assente

Assente em pedra xisto

Vida má, vida de Cristo

Douro velho eternamente.

João Guedes 1975

A Lua a Madrugada e o Oriente

A inspiração vai-se sumindo


De mim a inspiração vai-se sumindo

Fazer poemas é cada vez mais raro

O Mundo é cru estúpido, mal vindo

E eu neste momento da vida o passo paro.

A madrugada surge devagar a Oriente

Perdi acordado uma noite inteira.

(por obrigação estive a escrever prosa para um jornal)

Olho de soslaio para a janela ingente

Através da qual o Sol se esteira.

Creio que o artigo me saiu menos mal

Ao menos que me paguem pelas horas que gastei

A juntar palavras e exarar opinião.

Mas essa perda de tempo não é a questão.

O problema sou eu.

O nascer do dia surge

Logo a seguir ao lusco-fusco - madrugada bela

E há um rio afluente

E há um assobio de pássaro - ouço além uma cantarela.

Será uma cigarra lírica, ou apenas o ruído prosaico

Do quotidiano que é sempre onomatopaico.

E o Mundo, sempre de certo modo ausente

Na sonolência ligeira

Que me sobrevem

Torna-se mais uma vez presente.

O que me ficou verdadeiramente

Por fazer não o digo a ninguém.

Perdi o meu passeio.

Ontem devia caminhar, mas não o fiz

Preferi gastar uma meia - noite de tempo em falaz seio

E casar por momentos com uma lua de verniz

Adormeço.

Adormeço a meia-tarde!

Vejam lá!

A inspiração sumiu-se

Já não me apetece poetar

Mas passear

No onírico mundo infindo

Por onde posso imaginar.

Que durmo e não estou e não me culpo por tardar

E me ter esquecido ontem de passear

(passear meia-hora por dia, pelos menos, é o que o meu médico recomenda para a minha doença)

Mas de repente acontece.

Acordo!

A sesta foi-se e o Sol arde

E eu ainda meio a dormir naquele seio

Pintado de branco giz

Verifico que foi apenas um passeio

Que não fiz.

Lavo a cara. Olho para o relógio.

Estarei atrasado para entrar a horas no emprego?

Não. Não tenho horário fixo.

Há que sossegar!

O mundo foi-se num ápice e já são outra vez horas de jantar

Que mundo este o de imaginar

João Guedes

Sunday, June 20, 2010

A minha homenagem pessoal a Saramago


Preguiça e afazeres (principalmente preguiça) levam a que este blogue que mantenho não seja actualizado tanto quanto merecia. Mas hoje apesar de ser fim-de-semana e ter ido para a praia (a praia “chateia-me” por que fico sempre com a sensação de que nessas horas de natação e papo para o ar deixo sempre por fazer alguma coisa importante. Claro que depois rememoro a minha agenda virtual e verifico que na verdade não perdi tempo nenhum. Mas é sempre assim) e ter tido de “aturar” os filhos que acharam que me deviam homenagear por ser “Dia do Pai” na China - por mor da tradição e assim...- e me invadiram o castelo ainda por cima acompanhados da progenitura, ou seja as minhas netas pequeninas e irrequietas que me destroem sem respeito nem complacência a rotina, os “bibelots” (principalmente os que se partem) fazem desenhos nas fotocópias do Arquivo Histórico e nas gravuras que guardo secretamente (?) numa gaveta especial, mas cujo segredo conhecem e fazem gala em descobrir mal cá chegam a casa (como se descobrissem o tesouro pirata do capitão Morgan). Isto apesar de cá ter um contentor infindável de brinquedos comprados especifica e cientificamente para entreter as suas pequenas idades. Os pedagogos não sabem do que falam nas “posologias dos brinquedos” que constam nos rótulos das caixas. “Este brinquedo é específico para crianças entre os 3 e os 5 anos de idade”, diz a posologia no rótulo da caixa. É mentira evidente. Do que as minhas netas gostam é de brincar com as minhas canetas de estimação, o meu medidor de diabetes (objecto electrónico altamente sofisticado que custa um dinheirão) os bonecos mal amanhados que trouxe do Myanmar. Enfim um pandemónio... E o pior é que em vez de correr a família à bofetada não! Ainda acho graça.

Ser avô é negação da moral romana e antiga do “pater famíliaes”. Mas só agora o descubro. Certamente que já não vou a tempo de corrigir a moral vigente e de evitar o olhar de soslaio (meio escandalizado) de meus filhos que se tivessem o atrevimento de me tocar nas canetas iam para o “quarto escuro”. Felizmente que quando meus filhos eram crianças ainda não fazia colecção de canetas e o quarto escuro não passava de uma ameaça igual à do “homem do saco”.

Mas tudo isto para dizer apenas que retomo este blogue para deixar um “post” de homenagem (e já são 4 horas da manhã) a José Saramago.

Perde-se um grande escritor de que li alguns livro: - “Levantado do Chão”, “Memorial do Convento” “ O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Todos Os Nomes”, “Ensaio sobre a Cegueira”, “As intermitências da Morte”. Foram estes os que dele li.

Caim e o Evangelho não li, nem tenciono ler. Não porque tenha alguma coisa contra a temática que tanta polémica suscitou, mas apenas porque não me interessa o tema. Se calhar um dia qualquer quando estiver a gastar tempo na praia de papo para o ar e sem nada para fazer talvez os leia. De outro modo não me parece que o faça. Aliás contra a igreja católica já me deleitei e continuo a deleitar-me com a “Velhice do Padre Eterno” e “A Morte de D. João” poemas que para além de tratarem do mesmo assunto fazem-no em verso e deixam-nos extasiados perante a beleza de Deus, do Universo e a sordidez do Mundo em rimas tão harmoniosas que parecem melodias. Eram panfletos? Pois eram! mas eram bonitos e profundos.

Saramago pegou no tema em prosa. Estará literariamente bem feito (não sei porque como disse não li), mas não tem a melodia de Junqueiro e essencialmente surgiu a destempo. A Igreja de hoje está longe de ser a de há um século. E os combates de hoje não são os desses tempos republicanos estrénuos. O mundo mudou!

Mas rendo aqui, fora de horas também, a minha homenagem a José Saramago.

Monday, June 7, 2010

Friday, May 28, 2010

O vôo do Ganso



Descobri e encantei-me. Afinal a maravilhosa viagem de Nils Holgersson não começou na Suécia nem na imaginação desta mulher Selma Lagerlöf que inventou Kejjsam av Portugallien (O Imperador de Portugal, 1914).

Não tudo começou muito, muito mais tarde. Foi mais ou menos por volta de finais dos anos 50 do século XX nesta ignota aldeia que se chama Goujoím que o ganso tão real quanto inventado levantou voo.

Foi daqui que ao descolar desajeitado da terra o ganso, inadvertidamente, deixou soltar uma pena da sua asa direita que volteou, volteou, volteou e caíu na mão de Arnaldo Guedes que a usou para fazer o prólogo nunca publicado dessa viagem maravilhosa.

E o prólogo ficou assim escrito com a pena nas palavras desse "vale infância".

Assim: -

O VÔO DO GANSO

O nosso ganso de família, como o cão ou o gato passeava-se no quintal naquele passo grotesco, canhestro, bamboleante próprio da espécie. Na família dos patos todos são assim.

O quintal apenas possuía um exíguo tanque de rega, bastante para o efeito, mas acanhado para evoluções do ganso. Coitado!

Não precisaria de um lago, mais associado ao cisne, mas na verdade não tinha condições aquáticas para evoluir com outra graça que realmente não tem em terra firme.

Não é que eu ou outros não sorriam com a desgraça do descaminhar do ganso num desequilíbrio constantemente corrigido constantemente perdido, como uma criança nos primeiros passos, dados no entanto perante as mãos postas de pai prevenido.

O pai do ganso esse não ensina mais. Ele sabe que em terra o filho não tem muitas hipóteses de ter graça e a vida além de graça tem desgraça, mas espera que a mesma vida lhe ofereça lagos de fortuna, além do ar e do espaço infinito e livre.

O nosso ganso vivia confinado em dois socalcos ditos no meu sítio de richeiras (erro diz meu computador intrometido) de um quintal que existe porque o homem ergueu toscos calhaus em muros e sustentou a terra em declive criando terraços de cultivo como o nosso quintal, onde favas, cenouras, cebolas e mais espécies de hortaliça, mantinham o viço pelo Verão afora graças ao tal tanque curto para o ganso.

Neste cenário o ganso vivia em certa felicidade, deduzíamos. Mas quem pode adivinhar alma de ganso, senão talvez no “foie gras” onde se avaliam os bons ou os maus fígados da ave, o que é pelo menos uma ponta da alma.

Na mão da família nunca assim seria avaliado, juro, nem pela cozinheira, nem pelo Orlando furioso com os danos na horta e com o grasnar, ainda por cima malcriado do bicho mimado pelos patrões.

Estava entre nós condenado a morrer de velho. Era família e penso que gostava de nós deduzindo o Orlando. A estranhos grasnava furioso e era capaz de morder. Uma questão de território.

Do meu irmão criança denotava algum receio, mas dos mais velhos parecia gostar. Tinha connosco uma relação de confiança e até afecto, sem no entanto permitir que lhe passassem a mão pelo “pêlo” que era pena. Tinha o seu orgulho e altivez. Com aquele “papo“ não admira.

A vida decorria em paz em casa e no quintal; mas um belo dia, que foi à tarde, ao pôr do sol, naquela hora em que o traço de sombra da nossa montanha trepando como maré vinda do rio Tedo ia subindo e submergindo na montanha em frente, Longa, Carrazedo e ameaçando de penumbra a aldeia de Arcas, que então se deu o insólito e sublime pasmo em Goujoim. Nessa hora em que a melancolia como a sombra sobe no peito dos homens e dos bichos a ave estimada até mimada abeirou-se do muro alto da richeira e “à sorte e à morte” atirou-se literalmente em suicídio para outra vida.

Em queda livre, uma reacção vital comandou-lhe as asas que se abriram em larga envergadura, bateram em desespero e, sustiveram a queda num emocionante arremedo de voo rasante aos telhados dos vizinhos.

Uma emoção suspensa, o pasmo da família mirando do mirante, e o das mulheres do Vale ao soalheiro interrompendo a malha, contrasta com o júbilo da “canalha” à solta, meus amigos da bola, do pião e do pateiro, gritando, cheios de fé no rasgo da aventura e solidários com a ousadia do ganso e o seu anseio de sair da vida estreita do quintal para o horizonte luminoso sobre o vale.

Em breve o voo atarantado da ave trapalhona e angustiada se abriu num dos mais belos voos de condor só comparável a uma sinfonia musical ou a um poema que nos leva e nos enleva em horizontes mais divinos do que humanos.

O ganso lento pesado e arrastado nos dois curtos socalcos do quintal, tinha por dentro um horizonte tão largo a conquistar um anseio de mundo tão intenso que lançado do muro ao precipício insuflou-se-lhe a alma e lançou-se-lhe o corpo num bailado aéreo, tão belo tão suave tão encantador e espantoso, que estarreceu incrédulos.

O voo do ganso foi sublime. Abalou os conceitos dos velhos do Restelo, quero dizer de Goujoim. Diziam eles que apenas os patos bravos fazem largos voos, mas os gansos não. Era teoria caída por terra enquanto o ganso voa.

Mas os jovens crentes e alguns poetas impulsionaram de terra por telepatia os íntimos motores da ave palmípede, que vencida a gravidade, quedou os motores, asas potentes, e planou largos momentos nos nossos olhos vidrados de beleza.

Ficou um vazio no estreito quintal dos meus brinquedos. Faltava-me uma peça evaporada, mas erguendo os olhos por sobre o vale do Tedo, já por si belo, eu sinto esse espaço soberbamente preenchido e quase terminada a busca intemporal do Belo.

Caiu um ganso do muro do meu quintal, mas ergueu-se o encanto que me paira na memória desse vale infância.

Arnaldo Guedes