Saturday, September 20, 2008

Depois de um longo interregno retomo este blogue com um poema sobre a lusitaniadade


Quem somo nós luso descendentes?

Eu, tu e Vossa “esselência”
Somos descendentes de lusitanos e celtas
E de vândalos alanos e suevos e da essência
De um mundo inteiro nómada e cigano.
Uma excrescência
Que nasceu e cresceu
Por engano

Valha-me Deus meu!...

Um pouco do mundo inteiro chegou aos confins
da Ibéria apenas por que sim
Empurrados pela força
De outros povos
Novos?
Ou sabe-se lá por quê?
Enfim...

Uma enxurrada
De detritos da história
Vindos do norte do Sul do poente e da madrugada
Da Fenícia de Cartago
E “carago”!
Também do Magreb e da helénica Castória

Hoje em dia os cientistas dizem que nos nossos genes às vezes
encontram reminiscências de chineses
Serão
Então
Das invasão dos hunos
Que nos deixaram brunos
Com a saudade e o fado
E o mito de Perseu
Um país marginalmente ao lado?
De um continente
E um oceano ilimitado?

Sei lá Deus meu
Mas sei
Que foi assim
Que Portugal
Nasceu.



Saturday, June 28, 2008

Aquilino Ribeiro



Quem ama a literatura e a língua portuguesa, não o esquece, nem o esquece o tempo. Desconhece-o quem faz da literatura uma moda, porque é mais bonito gostar de um qualquer escritor medíocre do que da Odisseia, por exemplo. Tem sido assim ao longo dos séculos. Só de pensar que Diogo Bernardes teve em vida um êxito retumbante enquanto Camões - um dos maiores poetas do mundo - era praticamente ignorado, faz-me entender melhor esses silêncios.(Este um comentário sobre Aquilino Ribeiro, sob o pseudónimo de Musas Esqueléticas em Setembro de 2004. Comentário interessante.

Era miúdo quando encontrei o Doutor Aquilino Ribeiro, pela primeira vezes na livraria dos Bichinhas em Moimenta da Beira (teria dez, ou onze anos). Ia com meu Pai, médico de partido, que o conhecia muito bem e desde longos tempos (creio que dos tempos de Coimbra). O senhor Dr. Aquilino, de cabelos brancos, fez-me uma festa na cabeça, disse qualquer coisa das que se dizem a crianças em tais circunstâncias como: então menino? e passou para outra. Tinha mais que conversar com meu Pai e os outros amigos da oposição que se reuniam em Moimenta da Beira para conspirar contra o Governo.
Meu irmão José Joaquim, antes de mim teve oportunidade de estar com ele em sua casa de Soutosa.
Meu irmão teve mais sorte do que eu nesse contexto. Era mais velho que eu doze anos anos e Aquilino Ribeiro dispensou-lhe muito mais atenção do que a mim. Acompanhando meu Pai jantou e almoçou com ele várias vezes (meu Pai ia a Soutosa frequentemente). Eram encontros políticos. Conspirações contra Salazar.
Eu tive apenas direito a uma festa no cabelo numa ocasião efémera.
- Deixa-nos conversar criança terá pensado Aquilino (e provavelmente também meu Pai).
E meu Pai, Aquilino Ribeiro, o doutor Ferro e o Melita (este dono do café da vila)conversavam e conspiravam enquanto eu pegava no último número do "Mundo de Aventuras" que meu Pai assinava para mim e o Senhor Bichinhas me entregava:- Toma lá dizia em voz alta numa frase interrompida, cujo resto seria na sua cabeça mais ou menos assim:- Não nos distraias de assuntos sérios. Vai entretem-te. Sai daqui lê que isto é conversa de gente crescida que não compreendes nem te interessa. Penso que meu Pai pensava o mesmo.
E eu maravilhado com o livrinho que o senhor Bichinhas me entregava saía da livraria sentava-me do lado de fora, no rebordo do passeio e mergulhava na leitura de banda desenhada do "major Alvega".
Criança que não sabia que nesse pequena livraria de uma ignota vila de Portugal se cogitava a mudança de Portugal.
Como me lembro tão mal de um tão grande escritor de Portugal?

Catulo da Paixão


Catulo da Paixão Cearense (São Luís do Maranhão, 8 de outubro de 1863 — Rio de Janeiro, 10 de maio de 1946) foi um teatrólogo, poeta, músico, compositor e cantor brasileiro.
Mudou-se para o Rio em 1880, aos 12 anos, com a família. Trabalhou como relojoeiro. Conheceu vários chorões da época, como Anacleto de Medeiros e Viriato Figueira da Silva, quando se iniciou na música. Integrado nos meios boêmicos da cidade, associou-se ao livreiro Pedro da Silva Quaresma, proprietário da Livraria do Povo, que passou a editar em folhetos de cordel o repertório de modinhas da época.
Catulo da Paixão Cearense passou a organizar coletâneas, entre elas O cantor fluminense e O cancioneiro popular, além de obras próprias. Vivia despreocupado, pois era boêmio, e morreu na pobreza.
Suas mais famosas composições são Luar do Sertão, de 1908, que na opinião de Pedro Lessa é o hino nacional do sertanejo brasileiro, e Flor amorosa (sem data). Também o responsável pela reabilitação do violão nos salões da alta sociedade carioca e pela reforma da ´modinha´. Esta biografia foi tirada da Wikipedia.

Caboca di Caxangá

Catulo da Paixão Cearense

Laurindo Punga, Chico Dunga, Zé Vicente
E esta gente tão valente
Do sertão de Jatobá,
E o danado do afamado Zeca Lima,
Tudo chora numa prima,
E tudo quer te traquejá.

Caboca di Caxangá,
Minha caboca, vem cá.

Queria ver se essa gente também sente
Tanto amor, como eu senti,
Quando eu te vi em Cariri!
Atravessava um regato no quartau
E escutava lá no mato
O canto triste do urutau.
Caboca, demônio mau,
Sou triste como o urutau!
Há muito tempo, lá nas moita das taquara,
Junto ao monte das coivara,
Eu não te vejo tu passá!
Todo os dia, inté a boca da noite,
Eu te canto uma toada
Lá debaixo do indaiá.
Vem cá, caboca, vem cá,
Rainha di Caxangá.
Na noite santa do Natal na encruzilhada,
Eu te esperei e descantei
Inté o romper da manhã!
Quando eu saía do arraiá, o sol nascia
E lá na grota já se ouvia
Pipiando a jaçanã.
Caboca, flor da manhã
Sou triste como a acauã!

Que coisa linda!... Digo eu.
Recitei estes versos na terceira classe da minha escola primária. Foi meu Pai que mos ensinou e ensaiou. Eu disse-os com sotaque brasileiro e tudo. Tinha sete, ou oito anos de idade. Meu Pai insistia que eu devia dizer não "caboca demónio mau" mas sim "demonho mau" que era como se dizia no Ceará.
Quando recitei não percebia nada da poesia e muito menos de acordos ortográficos. Minha Mãe filha do Brasil não gostou muito que eu recitasse Catulo. Acharia melhor que eu disse-se Carlos Drummond de Andrade. Afinal era filha de minha avó que achava que o melhor português brasileiro era o que se falava em S. Luís do Maranhão terra de gente culta terra onde nasceu (tinha teatro de ópera e tudo). Meu Pai, que nunca conheceu o Brasil, mas leu tudo quanto havia para lêr da poesia desse país deve ter pensado que Catulo era (em termos de literatura)o irmão gémeo de seu amigo Aquilino Ribeiro. Os regionalismos dos dois estavam acima do romantismo gasto de Dantas e de Soares de Passos dois dos autores de que minha Mãe mais gostava.
-Vai Alta a lua... poetava Soares de Passos. Os Lobos uivam... prosava, Aquilino.
E entre minha Mãe e meu Pai confesso que não consigo optar. Isto é como a música. Umas vezes apetece-me ouvir Rachmaninoff, outras os acordes dos velhos do Buena Vista Social Clube. Outras vezes acho graça a coisas como as que canta o Quim Barreiros (que foi meu camarada na Força Aérea), outras ouvir Enia, ou os Dengue Fever. Depende do momento e do estado de espírito, ou do "mood" como dizem os ingleses.
Mas que Catulo da Paixão Cearence é um poeta inolvidavel isso é. Digam-no os cantores brasileiros que aproveitaram as suas rimas para fazer o melhor que a música brasileira tem.

Friday, June 27, 2008

Dois parágrafos de Arnaldo Afonso


Cogitar é aquilo que a gente faz ao alcançar a consciência de ser. O nosso ponto de origem de ser. Ser de onde? De que Universo? Do de Goujoim, do de S. Cosmado? Ou somos só cidadãos do Mundo como Sócrates. Realmente a nossa origem é uma espécie de poço da Regaleira. Inicia-se uma vida, mas há outras e outros e outros lugares, mas esse nosso fio vital ergue por vezes no pano passadeira da vida bordados de arte que pode ser poesia, ainda para além da filosofia.
O teu cogitare é poesia paralela à minha prosa sobre o nascer e ser. Em que ponto do espaço nasci? Dizes tu. Em que ponto do tempo nasci eu? A mesma incógnita de fundo, mas a tua duvida faz eco.
Arnaldo ou Naldinho de origem.

E agora a mais rendida homenagem aos cães. É um poema de Lopes Vieira que aprendi na terceira ou quarta classe da minha instrução primária (já lá vão décadas). Nesse tempo tinha um cão perdigueiro que se chamava Marão, depois tive outro que acho que era Labrador, como o que tenho agora. Era criança de mais para entender diferenças de raças. Quem sabia disso era meu Pai. Brincava comigo quando eu tinha oito ou nove anos de idade. Chamava-se Chingufe. Era preto. Eu era o Cow-boy e ele o índio. E o Chingufe rastejava na richeira de cima e emboscava o meu séimo de cavalaria por alturas das escadas que ligavam os socalcos. Lutavamos. Ele de dentes afiados eu armado de mãos vazias com uma imaginária espigarda whinchester de cinco tiros. O Chingufe atacava e eu descarregava tiros imaginários sobre esse chefe índio caindo-lhe sobre o dorso. E rosnava o Chingufe e mostrava os dentes, mas nunca mordia a sério e no final retirava à espera que eu fosse atrás dele. Eu ganhava sempre, mas acho que ele nunca perdeu uma batalha comigo e eu nunca lhe ganhei uma. Essas batalhas não eram para ganhar, ou para perder, como o Chingufe sabia muito bem. Eram guerras sérias. Depois dava com ele a roer um osso de que se tinha esquecido que estava posto lá em cima ao pé de casa. E quando o encontrava para o desafiar de novo já dormia a sesta. Que forma inglória de guerrear!...
Depois tive uma cadela inteligente que era fox-terrier atravessada de Pincher que se chamava Boneca. Depois ainda outra que se chamava Flecha. Era Pastor alemão. Forte e possante, mas que se dava com toda a gente na rua. Nunca mordeu ninguém. Mas quando alguém tentava entrar em minha casa sem autorização rosnava e abria os dentes. A rapaziada fugia cheia de medo nesses momentos.
(Hei-de contar noutra altura as particularidades dos meus outros cães).
Todos animais colossais como dizia Guerra Junqueiro. Todos diferentes, mas no fundo um fundo semelhante, como diz a seguir Lopes Vieira, no poema que transcrevo e depois de lido e relido me comovo sempre:


O CÃO

O cão
Que faz ão!ão!ão!
É bom amigo como os que o são!
É bom amigo,bom companheiro,
É valente,fiel,verdadeiro,
Leal,serviçal,
E tem bom coração.
Que diga o seu dono se ele o tem ou não!
Quando vem de fora a gente,
E chega a casa,é o cão
Quem diz primeiro,todo prazenteiro,
Saltando e rindo,
Contente
E com os olhos a brilhar de amor:
_”Ora seja bem-vindo
O meu senhor!”

O cão
Que faz ão!ão!ão!
É bom amigo como os que o são!
Que diga o ceguinho se ele o é ou não!
Nunca viram passar pelo caminho
Um ceguinho
Levando pela mão
O seu cão?
Que seria do cego,coitadinho,
Sem o seu guia,sem o carinho
Daquela dedicação?

O cão
Que faz ão!ão!ão!
É bom amigo como os que o são!
O pastor que diga se ele o é ou não.
O pastor leva o rebanho,
E vai-se ouvindo
O som lindo
Dos chocalhos muito finos,
No ar tinindo,
Como pequeninos
Sinos...
O pastor leva o rebanho;
E quem guarda os cordeirinhos
E as mães,
Dos lobos maus e vorazes?
São os cães,guardas valentes,
Que aos lobos dizem assim:
Ó lobos maus e vorazes,
Sim,
Andem,toquem-lhes lá,se são capazes!...
E,de longe,os lobos miram
Os cordeirinhos contentes,
Mas não se atiram,
Com medo dos seus cães valentes
E dos seus dentes:
O cão
Que faz ão!ão!ão!
É bom amigo como os que o são!


Lopes Vieira

O meu cão e o budismo


DISCÍPULO: - Como posso encontrar a minha natureza de Buda?
MESTRE: -Tu não tens natureza de Buda.
DISCÍPULO: E os cães?
MESTRE:- eles, sim, eles têm natureza de Buda.
DISCÍPULO:- Então, por que não tenho natureza de Buda?
MESTRE:- Porque precisas de perguntar.Os cães não têm simplesmente a natureza de Buda: a sua própria natureza canina é a natureza de Buda. E o que os torna pequenos Mestres Zen peludos, salivantes, latidores, pedintes, brincalhões? Bem, há um koan, ou ditado budista, do mestre Zen Shunryu Suzuki, do século 20, que o resume sabiamente: “Há algo de blasfemo em dizer-se como o Budismo é perfeito como filosofia ou ensinamento se não se sabe o que realmente é.” A nosso ver, Suzuki não poderia ter dito melhor. Nunca deveríamos presumir que presumimos saber. E menos ainda um cachorro. E é exactamente esta a pista do Cão Zen. Mesmo nos piores dias de cão, os cães sentam-se, param e abanam o rabo para expressar devoção, honestidade, lealdade, amor, compaixão e alegria – as mais puras qualidades Zen. Isso é tão visível quanto o focinho frio e húmido nas suas caras. Os cães vivem o momento presente. A cada minuto que começa ou acaba com o próximo osso, bola, migalha de pão ou até com o cheiro realmente desagradável que venham a farejar, os cães vivem a verdadeira alegria da vida.Certamente não foi obra do acaso terem sido os cães os primeiros animais a serem domesticados pelo ser humano e terem-lhes permanecido fiéis desde então. Talvez seja por isso que não duvidam que têm um espaço garantido na cama – milhares de anos de serviço os tornam merecedores de pelo menos uma boa noite de sono. E, depois de um cansativo dia de trabalho, aqueles olhos puros, meigos, de cachorrinho olhando para si com devoção canina, atiram longe o stress mais tenaz e o ânimo mais deprimido. E, quando o humor já está recobrado, fazem todo o possível para partilhar dessa felicidade – sobretudo se for a sua felicidade – com demonstrações de energia positiva, balançando o corpo e saltando de pura alegria.Talvez um único ano de vida de um cão valha por sete anos humanos porque eles não têm coisas inúteis a fervilhar nas suas mentes, assim como podem armazenar sete vezes mais amor num ano do que qualquer um de nós. Na categoria gosto-não-se-discute os cães ganham de longe. Quantas vezes já viu cães a amar incondicionalmente os seus donos – mesmo quando são pessoas muito difíceis – de um modo que talvez o próprio Buda visse como um desafio a ser vencido? Talvez eles amem essas pessoas simplesmente porque são capazes disso e aceitem voluntariamente o dever do combate emocional, uma vez que sabem, assim como Buda sabia, que o ódio não se vence com o ódio, o ódio é conquistado pelo amor. Os cães fiéis ensinam os seus donos, mesmo aqueles que não são dignos de ser chamados de pessoas, a amar de novas e diferentes maneiras.Outro presente que trazem para nossas vidas é uma lição da arte de identificar o que é verdadeiramente importante – uma cesta à tarde num lugarzinho cheio de sol, um relvado num cálido dia de primavera ou um belo e longo passeio sem destino certo. Aprendemos a ter paciência quando tentamos ensiná-los a dominar a arte de sentar-se, ficar de pé ou ir buscar algo. Qualquer pessoa que tenha sido acordada ao amanhecer, com latidos pedindo um passeio, recebeu uma lição de dedicação altruísta, do tipo da que faz a si perguntar-se já tinha mesmo noção de quem é o Mestre nas relações homem-cão, invertida o tempo todo.Como bem disse Buda, de forma muito simples e profunda:
Controle seus sentidos,O que você prova e cheira,O que vê, o que ouve.Em tudo, seja o Mestre do que faz, diz e pensa. Seja livre.Os cães não sabem falar e, convenhamos, certamente não têm as papilas gustativas mais refinadas do reino animal (eles deixam isto para a dengosa turma felina), mas estão sempre demonstrando um domínio dos próprios sentidos. Certamente seus aguçados focinhos conseguem não só desenterrar o osso velho, ora pronto para uso, que haviam enterrado sob a sua roseira predilecta um ano e meio atrás, como também conseguem farejar a sinceridade e a ternura nos seres humanos.E, a partir do momento em que conseguimos ver claramente por onde seus focinhos passaram, os cães mostram-nos como descobrir o melhor de nós mesmos. Usam seu refinadíssimo olfacto de forma miraculosa, seja para avisar famílias sobre incêndios no meio da noite, seja para localizar nódulos cancerosos nas pessoas, utilizando seus focinhos extraordinariamente apurados para prevenir tragédias que os alarmes contra fogo e médicos experientes não conseguiram detectar. E é essa mesma sensibilidade que fareja carências numa pessoa quando uma gentil esfregadela do focinho ou uma lambidela tola no rosto oferece um bem-vindo e carinhoso toque de cómico alívio.Mesmo que as papilas do seu paladar possam não parecer refinadas, eles certamente têm seus petiscos favoritos – um biscoito crocante, deliciosos sapatos novos italianos ou, melhor ainda, a gostosa maciez de sua bola de ténis favorita. Quanto a gostar de pessoas, têm suas predilecções, lembrando-se de algumas delas depois de anos sem vê-las ou mesmo viajando centenas de quilómetros para reunir-se aos seus amados humanos.Os cães vêem-nos como somos ou até mais profundamente; vêem-nos como podemos ser. A fidelidade de um cão ajuda-o a fechar os olhos para a fealdade das pessoas que o maltratam, vendo nelas apenas a beleza enquanto espera pacientemente que o seu lado melhor venha à tona. Se fôssemos suficientemente sábios para dar uma olhada nos espelhos da alma de um cão, veríamos que o amor ali reflectido está directamente voltado para nós.Todos já ouvimos falar da aguçada audição canina, já vimos suas orelhas ficarem em posição de alerta e perguntamo-nos o que estaria ele ouvindo. Seria alguma secreta estação de rádio canina que só eles conseguem sintonizar? Ouvimos constantemente histórias de cães heróicos que salvaram pessoas que gritavam por socorro; eles têm uma capacidade auditiva tão subtilmente sintonizada que só pode estar alocada nos seus corações. Contudo, sofrem de um problema de audição selectiva – palavras como saia e deite não são registradas do mesmo modo que vamos passear ou comida –, mas, venhamos e convenhamos, um cachorrinho não fica mesmo faminto mostrando-se tão dedicado o dia inteiro? E que lugar melhor para ficar roendo vigorosamente um osso do que um confortável sofá?Quando os seus humanos chegam a casa, sentam-se e ouvem tintim por tintim tudo que aconteceu no trabalho, os suspiros abafados, jamais fazendo o outro sentir que ele preferiria estar ocupado com alguma outra coisa. Se estão a pensar agora: “Mas quem é que fala com seus cachorros?”, pelo que sei, a resposta é bem simples: um bocado de gente. E por que não? Quem mais escuta dessa maneira? Os cães sempre se mostrarão bons ouvintes, presumindo que você é realmente inocente. Mesmo que se prove o contrário, o seu cachorro nunca o deixará perceber que ele está entediado ou tem alguma queixa de si.De maneira absolutamente Zen, os cães incorporam um grau de fidelidade, constância e firmeza em relação a seus donos que, em geral, os discípulos Zen só aspiram conseguir em relação a seus Mestres. Os cães mostram-nos como é uma natureza altruística; ajudam-nos a deixar de lado nossas tendências ao egoísmo e a preocupar-nos exclusivamente connosco para subir às alturas do compromisso e da dedicação, onde finalmente poderemos aprender a instalar-nos, e lá ficarmos firmemente comprometidos com nossas ideias espirituais. Podemos todos aprender a abster-nos de julgamentos com os nossos companheiros de quatro patas que nunca nos julgam pelas roupas que vestimos, pelo emprego que temos ou pela companhia que compartilhamos. Eles tratam a todos com a mesma generosidade de espírito, voltando sempre a merecer o título de Melhor Amigo do Homem.Cão Zen nasceu de um desejo de mostrar o puro e inalterável amor canino. Não só o dos mais doces, que são — tãããããão — engraçadinhos, mas o dos verdadeiros cães da raça McCoy, que são Zen de uma maneira que só eles sabem ser. Esperamos que, mesmo por alguns momentos, este livro, mais do que um tributo aos peludos pequenos Mestres Zen, nos ajude a dar uma boa olhada sobre nós mesmos pelo espelho da honestidade, lealdade, dedicação e espírito surpreendentemente puro dos cães. Quando encontro um cão claramente em sintonia com a sua própria natureza, olho-o bem nos olhos e faço a seguinte pergunta: “E então, o que fazes para ganhar a vida?” Inevitavelmente, qualquer um digno de sua raça tem a mesma resposta: “Eu sou apenas um cão.” E simplesmente entrega todo o seu coração ao que veio fazer aqui – servir a seus donos, ensinar-nos o que é o amor incondicional, dar-nos o presente de aprender a estar presente – ele cumpre sua missão de cão como um verdadeiro Mestre. Pois, no final das contas, a presteza da mente é que é a sabedoria. Observe uns olhinhos fixos no sanduíche que está a comer e logo ficará a saber que eles estão atentos e conscientes do facto de que, se fizerem aquele olhar de eu-um-pobre-coitado-faminto, naquele momento você poderá sucumbir. E, se acontecer que um biscoito caia no chão da sala de estar, você descobrirá que a sua desenvolvida mente Zen captou o fato, pois, antes que a chuva pare de cair, ele já terá conseguido ouvir um pássaro e perceber que o sol está a caminho. Mesmo deitado sob o sofá, conseguirá encontrar aquele biscoito que escapou da mão do seu dono.

Monday, March 24, 2008


O sábado a tardar
E o cão ladrar
Como todos (o meu) é amigo do dono
Mas inconsciente
Não pressente
Que incomoda o meu sono.
Cão!
Cala-te senão...
Ameaço eu.
Mas o meu cão não se importa
Dorme no meu quarto
Está fechada a porta
Ele quer comer.
É meio-dia!
Eu quero dormir
Dicotomia
Ele acordou de madruga
Como compete a um animal
Que se deita cedo
Eu deitei-me tarde, e mal
E só ao meio-dia me aconchego.
(Ou mais tarde ainda)
O meu ciclo circassiano
Acho que nunca finda.
Poderia ficar a dormir todo o ano.

O meu cão
Animal paciente
Fica a esperar.
Uma manhã a dormir no quarto do dono
É sono
Impossível de aturar

E é então que se começa a irritar
E a ladrar

Meu dono (diz o meu cão)
Acorda desse sono
Vamos! Então?
Quero comer
Deixa essa inanição
Levanta-te
O dia já vai a mais de meio
E tu, seu calaceiro a dormir.
Volto-me na cama a fingir
Que não o ouço a ladrar
Como faço quando há obras decorrer
Num qualquer andar
Martelos a bater brocas a esburacar
Num apartamento
Qualquer
Do edifício onde moro.
Já sei que não há decoro
Diz o meu cão
Mas meu dono. Por favor
Sai da inanição
Do teu sono.
Tem amor.
Abre-me a porta
Vai à cozinha
Pegas na ração
Põe-ma na marmita
Nem sequer precisas de tirar o pijama
Eu como
E tu voltas para a cama.
E eu faço como ele diz
Levanto-me, dou-lhe de comer
Regresso ao quarto e volto a adormecer

O Sábado já vai a mais de meia da tarde
O Sol a entardecer

E eu volto a dormitar
E a sonhar

Mas

Por entre a luz que se defenestra
Eu, meio inconsciente, volto-me mais uma vez na cama
E vejo o meu cão que se derrama
No tapete, outra vez a dormir a sesta

Meu amigo
Vamos continuar a dormir
Tú vais sonhar comigo
E eu contigo
Deixemos o entardecer partir.
Amanhâ se calhar
Voltamos a acordar
Se Deus quiser
Ou então
Meu cão
Lindo animal o dia que vier
Vai ser o que Deus quiser
Macau 14 de Janeiro de 2008

Macau frondoso



Saturday, March 15, 2008

Viagem ao País da Manhã



Hermann Hesse

Escritor alemão, emigrou para a Suíça em 1912 e em 1923 naturalizou-se suíço.
Filho de pais
missionários protestantes (pietistas, como é típico da Suábia) que tinham pregado o cristianismo na Índia.
Procurou construir sua própria
filosofia, a partir de sua revolta pessoal (Peter Camenzind, 1904) e de sua interpretação pessoal das correntes filosóficas do Oriente (Sidarta), e em especial em O Lobo da Estepe (1927), que é também uma crítica contra o militarismo e o revanchismo vigente na sua terra natal depois da Primeira Guerra Mundial. Esta postura corajosa o fez bastante popular na Alemanha do pós-guerra, depois da desnazificação.
Em
1946 ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, pelo livro O Jogo das Contas de Vidro..

Um extraordinário livro.
O resumo biográfico é tirado da Wikipaedia que pura e simplesmente não fala em a "Viagem ao País da Manhã", ainda que esta sua obra já vá na sétima edição em português. A primeira foi em 2002. A tradução (bem feita) é da autoria de Mónica Dias. A editora é a ASA. O título original é: "Die Morgenlandfahrt". Foi publicado originalmente em alemão em 1957.
Hesse, no fim da vida, foi confrontado com o seu próprio passado de filiado na juventude hitleriana, ou coisa que o valha. Pediu desculpas e os jornais peroraram (à esquerda tabloide) sobre esse seu pecado original. Condenaram-no. Com que direito? Com o mesmo com que podemos condenar-nos a nós mesmos por termos sido da mocidade portuguesa por exemplo, quando eramos alunos do liceu e a isso obrigados.
Hesse, nunca renegou nada. Como todos nós apenas embarcou no comboio da vida e de estação em estação foi percebendo o mundo que flui em linha recta para o futuro pouco cuidando do passado e caminhando sempre no sentido dos ponteiros do relógio, ou seja, da esquerda para a direita num círculo geométrico que afinal se envolve e revolve (de facto entre a esquerda e a direita mas não nem sempre, nem por vezes, nem por algumas cisrcunstâncias) para se encontrar a si próprio. Não na circunvalação onde giram os ponteiros, mas sim no mecanismo do relógio que os fazem girar.
- Quem longe viajar, vai muita coisa avistar
Muito distante daquilo que considerava verdade,
Quando depois, nos prados da sua terra o contar,
Então como mentiroso é amiúde, tratado.
Porque o povo obstinado não quer confiar,
Quando não vê e não sente nitidamente o narrado.
A inexperiência, diz-mo a imaginação,
Pouco crédito dará à minha canção.

Isto diz Hesse em a Viagem...
Uma viagem em que é mais fácil perder companheiros do que encontrar irmãos. Ou se calhar perceber a diferença entre ir vivendo, ou procurar o sentido da vida para viver de facto..

Friday, December 28, 2007

Nevões

Mais recordações de infância.
Tinha quatro ou cinco anos quando este nevão aconteceu.
Ninguém se lembra hoje desse ano (provavelmente nem sequer o povo de hoje de S. Cosmado?...)
Hoje as notícias dizem que o clima isto e aquilo. Mas nesse ano e momento nevou, nevou, e nevou, como nunca tinha nevado antes. Ninguém se lembrava de um nevão assim. Dizem hoje que em S. Cosmado, já não neva como dantes. Se calhar não... Mas que era bonito era.

Para Quem não saiba relembro que S. Cosmado fica na Beira Alta, distrito de Viseu, Concelho de Armamar.

Esboço do meu cão

Um Esboço do meuPosted by Picasa cão
É melhor do que uma fotografia.
A fotografia é química e fria
Transmite realidade mas é vazia
De interacção
De amor
E de emoção.

Os traços da minha caneta
De cor preta
De tinta da China
Fina
Formam-lhe o perfil
Por acaso
Num Coloane de ocaso

Esbocei os traços do meu cão
Exactamente no dia vinte e cinco de Abril.

Ocasião?

Nem foi por acaso
Nem por querer
Foi assim
Ao ver
Um Sol a perecer
Anil e raso

Diariamente o Sol fenece e amanhece para mim.
Acho que desde que nasci tem sido sempre assim.

E acho que nesta ocasião
Esbocei
Os traços finos do meu cão
Da melhor maneira
Que sei
Mais real?
Sim!
Assim,
Mais natural
Do que em qualquer fotografia.

Nem por acaso
Nem por querer

Eis os traços esboçados
Do meu cão labrador
Guardador
Dos meus medos escondidos, guardados
E sublimados.

Ele, meu cão.
Guarda-me em qualquer ocasião
Mesmo quando se projecta
Através da minha caneta

Numa teoria
Estética
Esboço de situação
Filosofia emética.

O meu cão!

Dono e cão
Nesta situação
Somos seres semelhantes
Redundantes

Ora, ora...!
É o meu cão
Amigo em qualquer situação.
Cão, meu, amigo
Já estou os sapatos a calçar
Vais comigo
Vou-me de alguma preguiça libertar.
Meu cão vamos os dois passear.
II
Acabado de passear
Sob um céu azul de anil
Pergunta o meu cão do fundo do seu olhar
O que é que tem a vêr a passeata com o 25 de Abril?
E eu respondo: Nada
É apenas uma recordação datada
Uma ocasião
passada
Uma remomoração
Neste ocaso de ocasião.
Não foi nada.
Cão!...
Não foi nada!...
Vamos embora.
Agora
"Baza"
Tú e eu
Acabou a passeata vamos para casa.

Wednesday, November 28, 2007

As venerandas barbas e o retorcido bigode do fundador do Grémio Militar.




O Clube Militar de Macau (CMM) foi fundado em 20 de Abril de 1870 com o nome de Grémio Militar.
"Aos vinte dias do mês de Abril de 1870, na sala dos oficiais do Quartel do Batalhão de Infantaria, reunidos os oficiais ao serviço do referido Batalhão, propôs o Alferes Dores organizar-se um Grémio não só para ponto de reunião, como, mui principalmente, para nele se estabelecer uma biblioteca de livros militares, científicos e de qualquer outro assunto, havendo também jornais, jôgo de armas e de todos os permitidos por lei.Aceite a proposta pela corporação, nomeou o chefe da mesa preparatória, da qual tomou a presidência, a fim de imediatamente se proceder por escrutinio à eleição dos oficiais que deviam elaborar o projecto de estatutos para o referido Grémio.

Recolhidos os votos, foram eleitos: presidente, o capitão Manuel de Azevedo Coutinho, vogais, o tenente Henrique Augusto Dias de Carvalho e o Alferes Rafael das Dores, sendo este o secretário. Nomeada a comissão, ficou logo convencionado que podiam ser sócios do Grémio todos os oficiais do exercito, marinha, reformados e aspirantes. Em seguida o presidente deu a mesa por dissolvida e encarregou a comissão de fazer convidar para sócios todos os oficiais nas circunstâncias acima, sendo estes os fundadores, os quais avisariam para as sessões em que forem presentes os estatutos, e assim terminou esta reunião do dia 20 de Abril de 1870. Ass) - Domingos José d' Almeida Barbosa - tenente-coronel."
Os primeiros estatutos do Grémio Militar foram aprovados pelo Governo a 24 de Janeiro de 1871 e publicados a 31 do mesmo mês no "Boletim de Macau e Timor" ano 1871, Vol. n.° 5 - 30-1-1871.No início admitia apenas como sócios os oficiais militares. No entanto, cedo se abriu à sociedade civil passando a admitir também como sócios os funcionários superiores da Administração.O Grémio Militar organizou uma biblioteca riquíssima em que existiam as primeiras edições de obras de Camilo, Eça, Antero, Ramalho, Junqueiro, Enes, e tantos outros.
Pelo Grémio passaram conferencistas de prestígio - José Maria Teixeira de Guimarães e Cardeal D. José da Costa Nunes - poetas consagrados - Camilo Pessanha - e jornalistas de mérito - Silva Mendes. E foram organizados muitos saraus, bailes e concertos...


(Manuel de Azevedo Coutinho (na foto parece o general Lee da guerra civil americana...)

As instituições, como as pessoas, têm na sua existência altos e baixos. No caso do CMM esses anos foram os de 1941 a 1951.De facto, durante a Guerra do Pacífico (1941-1945) o edifício da sede do Grémio Militar foi requisitada pelo Governo para albergar refugiados de Hong Kong.O rico mobiliário e biblioteca foram guardados no armazém das Obras Públicas no Bairro 28 de Maio. No entanto, o longo período da Guerra, a rotação do pessoal militar, fizeram arrefecer o espírito associativo e, quer o mobiliário, quer a biblioteca se perderam por completo. E, no fim da Guerra, o Governo instalou na sede do Grémio a Repartição da Fazenda.Construído e inaugurado o Palácio das Repartições, o edifício do velho Grémio foi devolvido aos sócios em 1951.

O arquivo do pó

“Em um dos meses do ano de 1909, Dezembro se a memória não me falha...” escreve Abílio Magro, o governador civil de Lisboa, João de Azevedo Coutinho, deu- lhe instruções para se deslocar a Espanha a fim de obter por compra ao famigerado António de Albuquerque o autógrafo de um livro com revelações sobre o regicídio, A execução do Rei Carlos. Uma vez que já não era secretário particular do juiz de Instrução, Abílio Magro vai a Granada como agente de confiança. Hospedado no Hotel Victoria, entra em contacto com o “Lêndea” que queria ficar à força na história.A execução do Rei Carlos é mais um livro de escândalos de Albuquerque, neste caso um diálogo de obscenidades entre ele e um seu amigo regicida fictício, de nome Fabrício de Lemos. Dois terços do livro descrevem a vida voluptuosa do autor com uma escrava sexual Fatimah que trouxera de Marrocos, o outro terço os preparativos do regicídio, numa variante sentimentalona e balofa de A Filosofia na Alcova, do marquês de Sade. A nota introdutória diz o seguinte: «À inolvidável memória dos mártires da mais sublime das causas, a menos compreendida e a mais caluniada. Que Buíça e Costa descansem em paz eterna entre as flores com que mãos piedosas cobriram as suas campas de heróis e sob as bençãos que desde a terra lhes en­viam os seus camaradas oprimidos! Saudade para as suas memórias, perseverança e cora­gem para nós.»Comprado por 120$00 ao Albuquerque um manuscrito, Magro regressa com uma das fontes primárias sobre a conspiração do regicídio e o Grupo dos 18 nela empenhado. Esse Grupo dos 18 de onde saíram os regicidas era constituído por José Nunes, Vergílio de Sá Alfredo Costa, Manuel Buíça,professor; e Domingos Fernandes Guimarães, caixeiro, Artur dos Santos Silva, operário; Saul Simões Sério, comerciante; Carlos Kopke, bancário; António Rodrigues Pires; Armando Octávio Dias, Roque de Miranda; António José dos Santos; industrial; Francisco Soares; A. Figueiredo Lima; Manuel pereira da Silva e um francês, um italiano e um catalão, como representantes das organizações anarquistas dos respectivas países. Nesta lista, onde a par de nomes comprovados existem outros duvidosos, assinala-se a presença dos estrangeiros em conformidade como as indicações de Magalhães Lima com quem partilhava conhecimentos e segundo Rocha Martins, “o famigerado Francisco Ferrer não foi de todo alheia ao que então se passou em Portugal”.No regresso, recebido por Azevedo Coutinho no palácio da rua da Rosa, Abílio Magro entrega-lhe o autógrafo de trezentas páginas. O governador civil de Lisboa considerou-o tão importante que o levou, no dia seguinte, a D. Manuel II, então em Vila Viçosa a acompanhar a visita de Afonso XIII de Espanha. D. Manuel estimou devidamente o alto serviço prestado e entendeu dispensar a sua protecção a Magro. Este, sendo candidato a um lugar de escrivão de direito do cível, pedia preferência perante um indivíduo protegido pela “aristocracia feminina” e pelo ministro da justiça João de Alarcão. Todos os sinais são de que o rei se empenhou, como testemunharam o conde de Tarouca e João Azevedo Coutinho. Mas os dias e semanas passaram e o provimento do lugar não chegou. Nem por isso Abílio Magro deixou de continuar a recolher materiais sobre os regicidas.

Comentário:

1- Transcrevo este comentário de um blogue.
2-Parece-me que João Azevedo Coutinho seria parente muito próximo de Manuel de Azevedo Coutinho ( senão mesmo, irmão). Um era da marinha, outro do exército. Manuel. foi o fundador do Clube Militar de Macau.


O Livro está à venda (se existir em sotck), em www.alfarrabista.com/

O Post seguinte é sobre Manuel de Azevedo Coutinho e o Clube Militar, que actualmente em Macau é "in".
Um próximo post será sobre Abílio Magro. Terá estado alguma vez em Macau? Acho que não, mas vou investigar.

Quem terá sido Abílio Magro?

Tuesday, November 27, 2007

Outra vêz o português que nos pariu


Para o Portugal de hoje que se transformou de nacionalista em lusófono e europeu haverá duas datas a comemorar:
A primeira foi a Batalha de Alcântara entre o Prior do Crato e Castela, em 1580 (o Prior do Crato perdeu).
Depois da morte do cardeal-rei, D. Henrique, Portugal perde a independência para Espanha. O domínio dos Habsburgos em Portugal haveria de se manter até 1640 (dizem os manuais de história).
Esta derrota nacional permitiu no entanto que Portugal aumentasse incomensuravelmente os domínios que detinha no Brasil. Sabem porquê?
Porque, com as duas coroas ibéricas unidas, ficava de facto e de direito obliterado o “Tratado de Tordesilhas”. O Brasil podia expandir-se para onde quisesse.

A segunda data a comemorar é a de hoje, 27 de Novembro de 2007. Duzentos anos depois da viragem do avesso do antigo Portugal e de um bom quarto do Mundo.

Sim, foi em 27 de Novembro de 1807, que D. João VI, acompanhado por mais 15 mil pessoas embarcou no Tejo rumo ao Brasil (creio que em cerca de 50 navios, uns de guerra, outros mercantes) a fugir ao avanço de Napoleão e das ideias novas que submergiam como um maremoto a Península Ibérica (e o resto do mundo).
Que decisão difícil não terá sido essa de D. João VI? (ninguém sabe. Nem os historiadores e nem sequer o próprio João VI terão sabido ao certo quando tomou a decisão de embarcar)
- Suponhamos que a Inglaterra, se em circunstâncias semelhantes tivesse decidido mudar-se de S. James Park, para Sidney, na Austrália, que “uproar” não teria sido na Comonwelth.
Se a França tivesse então ganho o domínio dos mares na batalha de Trafalgar? o mundo não seria o que é hoje. “Quelle chagement” -.
Mas claro que os factos históricos dizem-nos que Londres, nunca se confrontou perante tal dilema.

Há duzentos anos o malogrado Lord Nelson, morreu em combate naval, contra os franceses em Trafalgar, e ganhou. A Inglaterra sobrepôs-se a todas as outras nações na soberania dos mares, é um facto. Mas, Napoleão, perdedor no mar, ganhou em terra e tornou-se senhor do continente europeu e das terras do Egipto – actuais Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos (sim! Marrocos, o país onde o nosso Sebastião desejado encontrou a morte).
Seria neste estado de coisas que D. João VI abalaria para o outro lado do oceano a fazer novo Portugal. O Brasil era promovido de colónia a Reino Unido. Uma colónia “mixuruca” passava a Reino Unido. Era obra e visão.
Os intelectuais ainda hoje discutem se D. João VI fez bem, ou mal, em mudar o Estado português para o Brasil. Em minha opinião não fez bem nem mal. Actuou segundo as circunstâncias e permitiu que Portugal seguisse independente e o Brasil pudesse ser actualmente (salvo erro) a quinta potência do mundo em termos económicos.
Mas se D. João VI não tivesse fugido para a Brasil o que seriamos nós hoje?
Tenho a minha opinião sobre isso e acho que a vou escrever num dos próximos posts. Será uma especulação semelhante à que seria sobre se Hitler tivesse ganho a guerra de 1939-45 (há um filme que especula sobre isso).
"O Português que nos Pariu" de Ângela Dutra de Menezes, não especula mas "receptacula" (será que existe tal termo em português?).
Já disse em post anterior que vale a pena ler o dito e vale mesmo.

Monday, November 26, 2007

Deu-me prá' qui.

Outra pintura Soviética

O que é isto?


Hoje estava para postar uma coisa minha. Mas de repente por falta de inspiração, ou de tempo resolvi postar apenas uma pintura soviética.
Autoria: - Yabloskaia
Data: - 1950
Era: - União Soviética.

Friday, November 23, 2007

Uma efeméride da minha preferência que deixei por assinalar o mês passado.


Although the Peninsula War of 1809-1814 has attracted a great deal of attention from historians, the extensive fortifications built in Portugal and known as the Lines of Torres Vedras have received very little attention. As Peninsula War expert Ian Fletcher notes in Osprey's Fortress volume #7 on that subject, only two previous books have focused specifically on these defenses which were so critical to the Duke of Wellington's operational planning. Indeed, Fletcher refers to the lines as "one of the best kept secrets in military history" and he describes the role these defenses played in halting and reversing the French invasion of Portugal in 1810.
The Lines of Torres Vedras 1809-1811 begins with a short introduction and chronology, followed by short sections on the design and development of the lines, Wellington's method of defense, the forts, life in the lines, aftermath and the lines today. Fletcher provides one very nice, 2-page color map of the lines, 2 period maps of the lines, and a map depicting Marshall Massena's retreat. The color plates by artist Bill Younghusband are decent, if not great (constructing one of the forts in the line, a cross-section of the great redoubt at Sobral, Forts 40-42, Fort San Vicente, Wellington inspecting French positions, and attacking a scarped hillside).
Wellington, ordered the construction of an extensive defensive position north of Lisbon in October 1809 in order to provide a final redoubt for the British if pressed by French invasion. Thousands of Portuguese civilians were used as the workforce to construct two main lines of defense, centered upon the craggy hilltops north of their capital. Construction required about one year and the result was a defensive system that stretched over 30 miles from the Atlantic coast to the Tagus River. In addition, Wellington's engineers put a major effort into countermobility operations, destroying all bridges and roads north of the lines to impede any French advance. As Fletcher notes, the lines were not a continuous barrier but a series of forts with interlocking fields of fire, barriers and defenses in depth. Wellington also instituted a "scorched earth" policy north of the lines, destroying grain and livestock as well as evacuating Portuguese civilians, in order to deny the French a source of food or labor.
The lines were finished just in time, as Marshal Massena's army approached Lisbon in October 1810. Wellington manned the fortifications themselves with 30,000 Portuguese troops and over 400 cannon, leaving his 29,000 British troops as a mobile reserve to counterattack any French penetration. Massena's army, already punished by a difficult march across Portugal and the painful Battle of Bussaco two weeks earlier, was dismayed when they bumped into the unexpectedly formidable Allied defenses. After sniffing around the east end of the lines for a month - including mounting a minor probe at one small section - the poorly-supplied French army began to withdraw.
In Fletcher's assessment, the Lines of Torres Vedras were "a total success" because they stopped the French invasion dead in its tracks. Fletcher, as some other British historians are prone to do, even refers to the lines as "impregnable." Yet is there really such a thing as an "impregnable defense" or is this merely a tradition of biased hyperbole? As Fletcher describes, most of the forts of the lines of Torres Vedras were built of dirt earthworks, some with stone walls, on top of very advantageous terrain. However, a key weakness was that the forts had little or no overhead cover and were therefore vulnerable to plunging fire from French mortars or howitzers. Fletcher fails to mention that Massena's army had such mortars and that they had been used to reduce the far more impressive stone fortress of Almeida only seven weeks prior. It is also questionable whether the British had a real plan to defend the lines in time of limited visibility, such as darkness or fog (granted, night attacks were rare in this period). In fact, Fletcher notes that the French used the extensive fog in the area to cover their withdrawal. However, the greatest weakness of the lines was logistical. Although the Royal Navy brought in enough supplies to feed the British army, the Portuguese capital jammed with thousands of refugees was vulnerable to starvation. Indeed, Fletcher estimates that about 2% of the Portuguese population starved to death in this brief period of French invasion. What if Massena had merely begun constructing his own double line of defense, say 5 kilometers north of Torres Vedras, to keep the British in and starve the Portuguese out? Since the British had destroyed all the roads and bridges in front of their own defenses, they would have found it difficult to attack out of the lines. Fletcher is fair in assessing that the lines remain "something of an enigma" since they were never truly tested by the French. Unfortunately, Fletcher is less than fair in assessing why the French failed to test the defenses. Massena's army had an extremely tenuous line of supply back to Spain, much of which was partially interdicted by guerrillas. At best, Massena had about 55,000 troops to try and batter through a fortified line held by about 52,000 Anglo-Portuguese troops. A 1:1 odds attack, virtually out of supply against an entrenched enemy with naval support would have been very foolhardy and could have resulted in the dissolution of the French Army of Portugal. Massena wisely chose to withdraw in order to re-supply. Thus, the Lines of Torres Vedras have always seemed very formidable because operational circumstances were so unfavorable for the French from the start. Yet had Napoleon decided to make a major effort in the Peninsula in 1811 and spend the effort to build up a series of logistical bases and roads into Portugal, Monsieur Wellington might have found that it took a lot more than well-sited dirt forts to stop the Grande Armée.
Digo eu: O autor deste comentário ( que em minha opinião não está mau) é R. A Forczyc (deve ser descendente de polacos). Vem na Amazon é só clicar para ver o que se diz mais sobre o livro.
É interessante assinalar que as Linhas de Torres ainda hoje são consideradas como um dos mais bem guardados segredos de guerra do Mundo. Esse segredo fez com que Massena, se deparasse subitamente com um muro intransponível, quando julgava que Lisboa estaria a seus pés em poucos dias. O segredo das Linhas de Torres, permitiu a Portugal, não só defender-se, mas também, contra atacar os exércitos invasores de Napoleão e a seguir "correr os franceses até Tulosa" como dizia meu tetravô que deixou o dito, dito nas lembranças de família até hoje.

E-mail a um blogue anónimo com a fotografia do meu cão que se está bem a cagar para a situação.


Monólogo de um bloguista anónimo com outro.

Eu não sei quem V. Exª. Seja, embora tivesse interesse em saber. Se soubesse poderia introduzir nestes debates que mantêm no seu blog o factor conhecimento. Nesse caso, poderia explorar-lhe os pontos fracos. Por exemplo: poderia, escrever, nos comentários, que quando disse, é por que... ou quando deixou de dizer foi por que...
Eu sei que há maneiras de descobrir tudo no mundo cibernético, mas como pertenço a uma geração anterior à existência da palavra “hacker”, limito-me a usufruir do que o meu monitor me mostra e pouco mais.
Devo dizer neste momento que, monitor é para mim é também uma palavra nova, já que o que eu via, há, digamos, vinte anos atrás, era um “ecrã”. Mas, agora, como o mundo é composto de mudança concedo que não tenha à frente dos meus olhos um “ecran” francês, mas um “monitor” anglo-saxónico. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Assim, também nos comandos do meu computador não sei qual é o que serve para descobrir quem é V. Exª.
V. Exª, mais dotado que eu em matéria cibernética com certeza saberá, já quem eu sou (dizem-me que os computadores descobrem logo qual a proveniências das mensagens). Provavelmente, de tão inepto a minha identidade não conseguirei ter escondido como devia, por exemplo, numa carta anónima, quanto mais, muito menos, em página “webb” o conseguiria.
Serve esta introdução para dizer que, se a informática implementou um mundo novo, na comunicação social, os blogs aproveitaram-na. Tal como os “hippies” da América, ou os anarquistas estudantes, do Maio de 68, da França (vamos aproveitar a liberdade que temos, para dela usufruir ao máximo. Não é isso que a palavra liberdade significa, usufruir? Diziam eles). Como concordo com essa visão “sartriana” do quotidiano, não posso estar mais de acordo com os blogs.
Enquanto o jornalista vulgar evolui numa cadeia de comando parecida com todas as hierarquias (mesmo as militares) o bloguista não.
Enquanto o jornalista sofre a censura, ou se auto-censura, o bloguista não.
Enquanto o jornalista preserva a boa conduta para preservar o salário, o bloguista (que não tem salário) não.
Enquanto o jornalista assina e/ou é conhecido, e por isso paga o preço do que escreve, o bloguista nem é conhecido nem assina. Por isso não paga preço nenhum.
Poderão dizer-me: Áh! Muito bem, mas o bloguista não é credível porque é anónimo, enquanto o funcionário do jornalismo tem obrigações e códigos de conduta e preservação das fontes e outras éticas que tais.
Mas que ética possui o jornalista “á la large”? Trabalha por conta de outrem, faz as notícias que a cadeia de comando lhe manda fazer e, às tantas acaba por deixar escrito, radiodifundido, ou televisionado, não o que viu, ou ouviu, mas muitas vezes apenas o que foi condicionado a transmitir, ainda que subconscientemente. Depois, quando chega a casa, ou ao bar, ou ao clube, revê o dia e descobre, que foi enganado. Afinal o seu trabalho, se calhar, não constituiu tanto uma notícia mas mais um anúncio publicitário de qualquer coisa que não estava nos seus planos. Boa desculpa para afogar em cerveja, ou whisky, ou nuns “shots” avulsos, os tantos mil caracteres que escreveu sobre, sabe-se lá o quê, e em nome de quem.
O bloguista não, porque o bloguista tem uma agenda que pode prosseguir sem interferências, a não ser as das suas próprias mudanças de humor e convicções. Neste ponto convêm fazer doutrina e é a seguinte:
- Em matéria de convicções, todos sabemos, que, são raros os que as mantêm mais do que por um período determinado, mas raramente por uma vida inteira a mesma opinião -se calhar Cunhal, foi uma honrada excepção a esta regra. Como dizia o velho Camões: “todo o mundo é composto de mudança” e o baladeiro dos anos 70 do século passado acrescentava: “troquemos-lhe as voltas porque o dia é uma criança” (quem dizia isto? Era o Sérgio Godinho, era o Letria? (O Rui Veloso, não era de certeza, nem o Jorge Palma, que esses vêm do rock português, caldeado nas holandas, que não se metiam (então e em princípio de carreira) nessas coisas da política propriamente dita. Passavam “a la large”, como disse sobre isso.
O bloguista, hoje, diz uma coisa, amanhã diz outra, e aqui está a importância do bloguismo, ou seja; reconhecer na verdade de hoje a mentira de ontem. Isto não se faz nos órgãos de comunicação social convencionais, onde os desmentidos por mais honestos que sejam vão inevitavelmente para o caixote do lixo, se forem anónimos e não acompanhados de identificação completa, para que o editor os tenha em conta e os mande pôr em letra de forma.
Outra coisa importante é a interacção com o leitor, que elogia, concorda, discorda, ou apenas insulta pelo prazer de insultar, na área, ou na janela dos comentários (não sei exactamente qual o termo informático para designar o sítio onde se coloca o “veneno” do leitor/comentador bloguista), mas não precisa de se identificar, o que é bom. Mas o “veneno”, ou a inocuidade, só é publicada se o bloguista a isso estiver disposto. E o bloguista só publica, se para aí estiver virado, situação que me parece perfeitamente ética e que dispensa qualquer “Provedor de justiça”.
- Eu, bloguista, só publico o que acho que tem interesse no meu blogue. Ponto parágrafo, e mais doutrina feita.
Ora! aqui está um preceito, que me parece muito mais transparente e ético, do que o dos provedores, que têm em conta a Constituição da República, o Código Civil, o Código Comercial, mas também, o Código dos Partisans, o “Código dos Dinossauros” (que é uma obra escrita, segundo me parece, antes da primeira idade do gelo. Já lá vão mais de vinte milhões de anos), reescrita no “Bagahavad Ghita”, cinzelada numas tantas pedras, no tempo de Moisés; reescrita por S. Paulo, numas cartas aos coríntios, ou coisa que o valha; editada em nova versão no Corão e, actualmente em projecto de revisão, moderna e actualizada, pela Igreja da Cientologia (Em versão de cordel, corre nas livrarias com a chancela da Igreja Maná e mais umas quantas seitas de igual teor – a 14 K, Soi Fong, ou Grande Círculo, ficam à partida excluídas, não só por que, é assunto interno da China, mas também porque no mundo ocidental ninguém sabe o que sejam e além disso não fazem pregação, nem têm canais de televisão).
Tudo isto pode no entanto voltar aos cânones e ao politicamente correcto, se os tais gestores dos “servidores” desconhecidos, onde os bloguistas se instalam forem desmascarados pelos “hackers”, como comecei por dizer. E então pode acontecer isto:
- Áh, és tu que escreves isto, constata o “hacker”, qual polícia de costumes.
- Estás descoberto! e aponta-lhe o dedo e manda-lhe a polícia à porta, acompanhada pelos provedores e oficiais de diligências, que costumam acompanhar os actos oficiais em circunstâncias assim.
Nessa altura, a liberdade que se instalou há pouco tempo (digamos cinco, ou seis anos atrás), estará perdida para sempre. E nessas circunstâncias voltaremos a ter apenas como fonte de comunicação de notícias e ideias, os velhos jornais, as velhas televisões e as velhas rádios. Tudo isso porque, face à retirada da couraça do anonimato ao bloguista, não resta alternativa, senão a de ajoelhar perante o cruzado, que lhe aponta a espada ao peito:
-Ou crês ou morres. Esta é uma expressão medieval que traduzida para a situação apontada quer dizer mais, ou menos isto:
- Ou acabas com o blogue, ou ficas sem emprego no sítio onde trabalhas).
Claro que, ao mouro inerme, tal como nos tempos medievais, sem saída viável, só ocorrerá uma resposta:
- Rendo-me, diz, espojado em sangue no campo de batalha. O meu blogue escreverá o que quiserdes e o que a Santa Inquisição, entender que deve ser escrito, ou então acabo com ele e peço desculpa.
O cruzado sorrirá e, recolherá a espada contente por ter feito mais um convertido à sua santa causa. A Igreja ganhou mais um convertido. O cruzado diminuiu um pecado à sua lista de iniquidades. Bom negócio!
O bloguista suspirará de alívio, não só por não ter sido morto (agora já não se praticam barbaridades assim tão directas como nos tempos de antanho), mas principalmente por que o seu salário continuará a ser depositado na sua conta bancária no mês, que vem. Que Mundo este!...
É por isso que me debato entre o desejo de saber quem o senhor autor do blogue anónimo seja e a vontade de que as minhas tentativas resultem não num fracasso, mas na continuação das minhas cogitações sobre quem V. Exª possa ser.
Devo dizer-lhe neste ponto que, não há pior coisa no mundo do que conhecer um autor. Falo por experiência própria e digo-lhe o seguinte: Agradeço a Deus nunca ter conhecido pessoalmente, Tolstoi, ou Dumas, ou Sartre, figuras pelas quais continuo a ter uma veneração igual à que teria se fosse católico praticante, por S. João Baptista, Santa Catarina, ou, Santa Teresa do Menino Jesus, ou o nosso Santo António, das formiguinhas. É que conhecer um autor é a desilusão total. Pura e simplesmente não são iguais ao que escrevem. Tal e qual como as vozes da rádio, colocadas e imponentes. Quando conhecidas pessoalmente são apenas pessoas com os defeitos mais patentes no físico e no semblante, do que as virtudes, que se impõem nas suas laringes dotadas.
Assim, e a menos, que algum inconfidente me diga e, com isso estrague a minha investigação (que o meu subconsciente pede que se mantenha “ad eterno”, sem resultado, mas sempre com esperança), para mim o mistério e o encanto continua.
- Quem será V. Exª.? diria Camilo, ou Eça e, sem dúvida, se o soubesse, mataria a personagem no penúltimo capítulo da novela se o conhecesse pessoalmente, por falta de merecimento.
Por isso, digo eu, descoberto o autor da peça, os meus comentários, apenas poderiam conter coisa prosaicas como as que disse no princípio deste meu escrito:
- O senhor bloguista, disse isto porque assim. O senhor bloguista deixou de dizer e sei muito bem porquê! Àh malandro!...
Enquanto isso não acontecer continuarei a ser um indefectível leitor e defensor dos blogues e principalmente dos bloguistas que têm a coragem de os manter.
Afinal, para mim “blogar” (será que inventei um neologismo, ou alguém já colocou a palavra no dicionário da academia?) é a mesma coisa que conversar com os amigos e possui uma vantagem, tem muito menos peias e muitíssimo menos restrições.
Abaixo as convenções sociais vivam os blogues enquanto puderem durar livres e anónimos.
Áh! e essencialmente viva a essência do provérbio anarquista: - Há governo? Sou contra!

PS. Devo dizer que continuo a tentar, mas não consigo fazer um blogue competente e de acordo com as regras da informática. Há um campo que, não está devidamente preenchido, há outro que deveria preencher de outra maneira... enfim, sou um zero a informática. Por isso, com humildade continuo a limitar-me a deixar comentários nos blogues dos outros. A conversar “vis a vis”, com amigos ignotos, sobre as maravilhas da técnica, os avanços da ciência, a política; ou simplesmente a cortar na casaca do vizinho. Enfim, exercito os ”Serões da Aldeia”, do século XIX, quando deveria estar a redigir com o resto dos cibernautas deste mundo os “Serões da Aldeia Global” do século XXI.
Mas, se calhar, na reforma hei-de ter tempo para perceber os milagres do mundo moderno e então, então...Hei-de fazer mesmo uma televisão por computador. Pensei dar-lhe o nome de “Al Jazeera”, mas parece que já há um canal com esse nome.

Thursday, November 22, 2007

Nostalgia


E o português que nos pariu...



E o “português que nos pariu?
É livro que vale a pena ler.
Não diz nada de novo sobre nada, mas tem uma escrita admirável.
É escrito em português brasileiro. Fica melhor ainda.
História condensada de Portugal, virada para o descobrimento do Brasil em luso fonia nova.
É um livro indispensável.
Claro que apenas indispensável para quem tenha sentido de humor. Senão não!
Quem o escreveu é Ângela Dutra de Menezes.
Sabiam que o tetravô da escritora foi major em Macau?
Sim, fez parte da guarnição de Macau nos idos de 1822.
Sim, foi no ano em que Macau, durante pouco mais de um ano, foi governado por brasileiros e marchou independente de, Portugal e Goa
Entre outros nomes destacavam-se nessa altura sobrenomes, tais como: - Melo (major e segundo comandante da guarnição), Barbosa (Tenente-coronel e presidente do Leal Senado) e Paula de Holanda Cavalcanti (alferes e comandante do forte da Guia). Este último, no caso, era o avoengo do cantor Chico Buarque (o cantor deixou cair sobrenomes sobre sobrenomes, nos discos que publicou e ficou só, Buarque e Chico e de Holanda, estilhaços de sobrenomes) .
Os revolucionários aguentaram quanto puderam o liberalismo em Macau, até aparecer a fragata Salamandra, com não sei quantos fuzileiros miguelistas, que desembarcaram na Praia Grande e puseram fim – a tiros de canhão - à “Primeira República Independente do Extremo Oriente”, como descreve o antropólogo Almerindo Leça.
Como o mundo é pequeno! ...
Ainda bem que a repressão da revolta macaense de 1822, comandada pelo coronel, Garcês Palha, não provocou vítimas mortais, mas apenas uma mão cheia de presos políticos que seriam todos perdoados mais tarde da pena capital pelo tribunal da “relação de Goa”.
A maior parte deles fariam a independência do Brasil, nos anos seguintes e nela foram protagonistas.
Aqui fica a biografia do oficial com menos graduação na revolução liberal macaense de 1822:
- Antônio Francisco de Paula Hollanda Cavalcanti de Albuquerque.

Militar e político, o Visconde de Albuquerque nasceu em Pernambuco, em 1797. Serviu em Moçambique e Macau. Voltou ao Brasil no momento em que eclodia a Confederação do Equador, a qual combateu, incorporado às forças imperiais. Com a derrota da Confederação do Equador, entrou para o Estado Maior do Exército e foi para o Rio de Janeiro, onde morreu em 1863.
Visconde de Albuquerque foi, Antonio Francisco de Paula Hollanda Cavalcanti de Albuquerque, nascido em Pernambuco, aos 21 de Agosto de 1797. Faleceu no Rio de Janeiro, aos 14 de Abril de 1863. Filho do Capitão-Mor, Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque e de Maria Rita de Albuquerque Mello; neto Paterno do Coronel, Francisco Xavier Cavalcanti de Albuquerque e materno do Tenente-Coronel, Antonio de Hollanda Cavalcanti de Albuquerque e de Maria Manuela de Mello. Casou com Emilia Cavalcanti de Albuquerque, filha do conselheiro Senador Manuel Caetano de Almeida e Albuquerque e de Emilia Amalia e Albuquerque.
Alferes em Macau (1822),Tenente-coronel em 1832.
Estadas em Moçambique e Macau.
Deputado no Brasil, Ministro da Fazenda 1830, 1831, 1863, do Império 1831 e da Guerra em 1845. Senador em 1838.
1º Visconde de Albuquerque em 1854.
Cargos de Relevo no Grande Oriente de Portugal: representante do Grande Oriente de Portugal junto da Maçonaria Brasileira em 1858
.
Que coisa interessante é a história.
Principalmente a história do antigo Portugal ultramarino que, Ângela Dutra de Nenezes, descreve tão bem.
Há livros raros e há livros que apenas vale a pena ler apenas pelo prazer de lêr e nada mais!

Wednesday, November 21, 2007

Francisco Gomes Teixeira


Gomes Teixeira (1851-1933)
Francisco Gomes Teixeira, matemático, nasceu a 28 de Janeiro de 1851 na aldeia de S. Cosmado, freguesia de Armamar, no distrito de Viseu.
Fez os estudos elementares na sua terra natal, e depois foi para o Colégio do Padre Roseira, em Lamego. Matriculou-se na Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra em Outubro de 1869. Ainda durante o curso Gomes Teixeira escreveu o seu primeiro trabalho, que foi publicado na imprensa da Universidade, em 1871. Concluiu o curso em 1874, com a classificação máxima, de Muito Bom por Unanimidade, com 20 valores. Em 1875 fez exame de licenciado com apresentação de dissertação e logo de seguida o doutoramento que obteve também com a classificação máxima.

Em 1876 tornou-se sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa e lente substituto da Faculdade de Matemática. Em 1878 foi nomeado terceiro astrónomo do Observatório Astronómico de Lisboa, mas apenas ocupou esse cargo durante cerca de quatro meses, voltando à Universidade de Coimbra.

Em 1879 foi eleito deputado pelo Partido Regenerador, tendo participado em sessões do Parlamento nesse ano e ainda em 1883 e 1884. Em Novembro de 1879 foi encarregado da cadeira de análise matemática, passando a catedrático em Fevereiro de 1880. Em 1884 Gomes Teixeira pediu transferência para a Academia Politécnica do Porto, onde dirigiu a cadeira de Cálculo diferencial e integral. Veio a ser pouco tempo depois director desta Academia, cargo que desempenhou até 1911, quando foi nomeado reitor da recém formada Universidade de Porto.

Relacionou-se com alguns dos mais destacados matemáticos de renome mundial da sua época, e publicou trabalhos em periódicos científicos de vários países. Deslocou-se várias vezes a outros países onde contactava com outros matemáticos e participava em congressos. Foi membro de várias sociedades científicas e academias de ciências, nacionais e estrangeiras.
Faleceu no Porto a 8 de Fevereiro de 1933.

Actividade CientíficaAinda estudante elaborou um trabalho intitulado Desenvolvimento das funções em fracção contínua, onde apresenta fórmulas para desenvolver as funções em fracções contínuas, que depois transforma em fracções ordinárias, e aplica as fracções contínuas ao cálculo integral e à determinação das raízes de equações, obtendo desta forma resultados mais convergentes do que pelos métodos de Newton (1643-1727) e Lagrange (1736-1813). Este trabalho chamou a atenção sobre as suas capacidades, não só na Universidade de Coimbra, como também fora dela, como é o caso de Daniel da Silva, que a partir desta publicação apoiou e incentivou os trabalhos de investigação de Gomes Teixeira.

Em 1872 Daniel da Silva apresentou na Academia das Ciências o trabalho de Gomes Teixeira Aplicação das fracções contínuas à determinação das raízes das equações, onde fazia a aplicação de fracções à determinação das raízes das equações. A dissertação com que fez exame de licenciatura intitulava-se Integração das equações às derivadas parciais de segunda ordem. Nesta dissertação antecipou resultados que Andrew Forsyth (1858-1942) só mais tarde veio a conseguir obter, tendo também sido destacada por Edouard Gousat (1858-1936), o grande tratadista matemático da época. Para ocupar o lugar de lente substituto na Faculdade de Matemática elaborou a dissertação Sobre o emprego dos eixos coordenados oblíquos na mecânica analítica.

Fundou, em 1877, o Jornal de sciencias matemáticas e astronómicas, que foi publicado durante 28 anos, até ser integrado nos Anais Scientificos da Academia Politécnica do Porto. Este periódico científico desempenhou um papel muito importante na divulgação dos progressos das ciências matemáticas e astronómicas, e contribuiu igualmente para divulgar o trabalhos dos investigadores portugueses.

Em 1887, já na Academia Politécnica do Porto, publicou o Curso de análise infinitesimal, Cálculo Diferencial (um volume) onde actualizou o ensino da matemática em Portugal. Em 1889 publicou o primeiro volume do Curso de Análise infinitesimal, Cálculo integral, e o segundo volume em 1892. Nesta obra faz uma síntese dos progressos realizados pela análise e introduz um novo nível de rigor na apresentação da matemática.

Em 1895 levou o trabalho Sobre o desenvolvimento das funções em série ao concurso aberto, em 1893, pela Academia Real das Ciências de Madrid. A Academia concedeu-lhe prémio, embora fora do concurso, por ter apresentado o texto em português. Em 1897 concorreu de novo ao prémio da Academia das Ciências de Madrid com o Tratado de las curvas especiales notables, tanto planas como alabeadas (Tratado das curvas especiais notáveis, tanto planas como torsas, tendo ganho o prémio ex-aequo com Gino Loria (1862-1954). É considerada uma obra clássica de grande qualidade científica e histórica com impacto internacional, tendo sido reeditada em 1971, em Nova York, e em 1995 em Paris.

Continuou a produzir e a publicar regularmente textos científicos, em revistas científicas nacionais e estrangeiras. Após uma primeira fase dedicada à Análise, passou a prestar cada vez maior atenção à Geometria. Nos últimos anos dos seus estudos dedicou-se à História da Matemática em Portugal, tendo elaborado uma obra que constitui uma referência para os estudiosos das ciências em Portugal, a História das Matemáticas em Portugal.

PublicaçõesEm virtude da vasta lista de textos publicados, que quase atinge as três centenas , apresentam-se apenas as referências para alguns dos trabalhos que marcaram o início da carreira científica de Gomes Teixeira e as Obras de Matemática, que reúnem em vários volumes muitos dos textos publicados anteriormente. Para uma listagem extensa dos textos publicados devem os interessados consultar a obra de Henrique Vilhena, O Professor Doutor Francisco Gomes Teixeira.

Desenvolvimento das funções em fracções contínuas. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1871.
“Aplicação das fracções contínuas à determinação das raízes das equações”, Jornal de Ciências matemáticas, físicas e naturais., Lisboa, IV, 1872-73.
Integração das equações à derivadas parciais de 2ª ordem, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1875.
Jornal de Ciências matemáticas e astronómicas, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1877. Jornal fundado por Gomes Teixeira, publicado até 1905, dedicado inicialmente às Matemáticas superiores e às Matemáticas elementares, mas que a partir de certa a altura se dedicou exclusivamente às Matemáticas superiores.
Anais Científicos da Academia Politécnica do Porto, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1905-1906. Substitui, na parte referente às matemáticas, o Jornal de Ciências matemáticas e astronómicas.
Obras sobre Matemática, Coimbra, Imprensa da Universidade, vol. I, 1904; vol. II, 1906; vol. III, 1906; vol. IV, 1908; vol. V, 1909; vol. VI, 1912; vol. VII, 1915.
Panegíricos e conferências, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1925.
História das matemáticas em Portugal, Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa, 1934.

Fernando Reis

Tuesday, November 20, 2007

A inquisição

http://www.youtube.com/watch?v=3ZQI0Xm29To
Vale a pena vêr este video bem antigo dos Monty Piton.
Aqui fica o link.

Anarquismo


Prince Peter Kropotkin was the first thinker since William Godwin to construct a full system of anarcho-collectivism. This collection consists of a bunch of satisfying niblets (yes, niblets) of that system, some better than others.
First, anyone into anarchism has got to read Kropotkins essay of that title for the Encyclopedia Britannica. It has to be the clearest written, most well-stated short intro around. His essay on "The Anarchist Morality (written oddly enough as a retort to some kids who, after stealing some books, justified it with "To each according to his need.")The early essays, which take us through the first hundred-or-so pages are the best, as they get into the underlying theory of anarchism and what "sponteneous order" might look like. Of course "Modern Science and Anarchism" is a complete misnomer because the essay is heavy on philosophical speculation with not much scientific speculation. The latter essays are more-or-less historical propoganda and will be of interest to the history student.

Still, in a world of inarticulate and often unsavory characters, Kropotkin comes off as astute, thoughtful, clear and insightful. Of course, science has (done its best to?)prove Kropotkin wrong on his altruistic evolutionary theories. Even modern "reciprical altruists" in the wake of Dawkins, Wilson and Ridley are looking less altruistic and more reciprical. I guess only time will tell. Hmmmm....

Este é o comentário de um leitor dos livros da Amazon.
Aqui o deixo sem considerações de mérito, ou valor.

Li Kropotkin, quando tinha 16, ou 17 anos de idade em português. Se o tivesse lido em russo melhor seria. Mas infelizmente de russo apenas sei dizer "spassiba" e pouco mais. Li o "príncipe" anarquista pouco antes de ir para a tropa (lembro-me bem!).
Será que o anarquismo e anarco-sindicalismo do "
combatente" Emídio Santana, desapareceram com o fim da Guerra Civil de Espanha?
Não tenho a certeza.
Com tanta confusão se calhar vai voltar a ser filosofia institucional daqui por umas décadas.
Vamos vêr como se vai desenrolar a história.

A Maçonaria em África


Como interessado em assuntos “herméticos” aqui deixo a capa de um livro sobre a Maçonaria em África. Ainda não o li, nem sequer o comprei na Amazon, de que sou cliente habitual, já que as editoras de Portugal demoram “bué” (como se diz na gíria hodierna das gerações do século XXI) a enviar os livros que pedimos e também a traduzir o que se dá ao prelo no Mundo.
A recensão parece-me interessante, nomeadamente no que se refere ao facto de a Maçonaria (apesar de prezar a Liberdade Igualdade e fraternidade) ter tardado em aceitar etnias não europeias no seu seio. Não sei se isso aconteceu apenas nas obediências maçónicas inglesas, ou também nas continentais (europeias, centro e sul americanas e médio orientais).
Ao que sei, no Extremo Oriente, os primeiros chineses aceites só o foram na primeira década do século XX, com alguma relutância da Grande Loja de Inglaterra. Sun Iat Sen terá sido dos primeiros?
Aqui fica a capa.
Espero “postar” novo “post” sobre o assunto logo que tenha “disponibilidade”. Ou seja logo que tenha disponibilidade para acrescentar mais este título às prateleiras já esgotadas de biblioteca da minha pequena casa.