Friday, April 1, 2011
Saturday, March 12, 2011
Eu e meus irmãos na Real República Bota-A- Baixo (Rua de S. Salvador, Coimbra) 1968. Num tempo em que Zeca Afonso preenchia os sons das vielas da cidade. Adriano dava as primeiras notas da sua biografia musical e Fausto vindo do “Ultramar” se começava a afirmar, também, como “baladeiro” oficial da juventude estudantil contra o regime nos tempestuosos saraus do cinema Gil Vicente”. Alguém já se recorda disso?
Meu irmão mais velho era residente veterano “Merda de Doutor”. Nós éramos “bichos” e eu mais “bicho” ainda.
Mas por sobre toda esta atmosfera pairavam as notas de guitarra de Paredes. Sons de liberdade que não tardariam muito a chegar.
É por isso que Paredes preenche ainda hoje o meu imaginário juvenil e por isso o relembrei nos “posters” anteriores
Os "posters" anteriores foram-me suscitados pela manifestação de Hoje que devido à diferença de fusos horários não sei como decorreu em Lisboa e nas restantes cidades e Deolinda de que meu filho diz gostar por ser nova e hodierna interpretação do fado.
Por que é fim-de-semana tive tempo para ouvir com mais atenção a tal Deolinda e não desgostei. Mas depois fui ao “yutube” (é assim que se escreve, ou “youtube”? Não sei nada destas coisas modernas!...) e descobri os fados da Amália. Originais e bonitos. São poucos, muito poucos os fados de que gosto e por isso resolvi deixar três dos que de facto me deixam extasiado. O resto de Amália e dos fadistas de Lisboa pouco interessa (em minha opinião). Meu Irmão mais velho gostava muito do fado e cantava bem. Ia às tascas de Lisboa e perdia tempo a ouvir as histórias cantadas de “faca e alguidar” como dizia nosso Pai. Nosso Pai que tocava guitarra de Coimbra e cantava com afino as baladas da “Lusa Atenas”.
Pena é que o fado e a balada de Coimbra se tenham extinguido com Luís Góis, depois de Zeca Afonso e dos clássicos anteriores. Ouvi dizer que uma rapariga canta agora fado de Coimbra e até gravou um disco, mas creio que não teve grande sucesso. Deolinda teve. Ainda bem. Será por aqui que a música portuguesa se poderá afirmar em novas gerações originais e genuínas? Não sei, mas parece-me que há caminho a abrir e gente nova a descobrir.
Wednesday, March 9, 2011
O meu cão sem trela e a liberdade
LIBERDADE
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por Dom Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca....
Fernando Pessoa, Obra Poética

Publico este poema de Luís Guimarães porque vale a pena. É uma variação (muito) provavelmente inspirada em Guerra Junqueiro – quase um plágio, do poeta, dir-se-ia, mas na verdade muito longe disso. Na verdade é o cão de Junqueiro mas do século XX (perdão XXI!..). Faz chorar tanto como o anterior, ou mais ainda. E é igual ao meu com que convivo há duas décadas e de que insisto em publicar mais uma fotografia que acima fica resguarda na penunbra dos dias.
Autor: - Luiz Guimarães
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
Para dizer numa palavra tudo
Foi o mais feio cão que houve no mundo.
Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida, o cão gemendo
Não me queria acompanhar por nada:
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.
O meu amigo cabisbaixo, mudo,
Olhava-o ... o sol nas ondas se abismava....
«Adeus!» - me disse,- e ao afagar Veludo
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
«Trata-o bem. Verás como rasteiro
Te indicarás os mais sutís perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos.»
Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitado
A sua cauda - caminhava errante
A luz da lua - tristemente uivando
Toussenel: Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo
Contendo a narração miuda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes:
Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais - todas francesas.
Assombrava-me muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso d’uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.
Finalmente, por baixo disso tudo
Em nota breve do melhor cursivo
Recomendava o pobre do Veludo
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.
Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento
Me contemplava, e - creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se a meus pés silencioso
Movendo a cauda, - e adormeceu contente
Farto d’um puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre d’aquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher d’um velho carvoeiro.
E respirei! «Graças a Deus! Já posso»
Dizia eu «viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo».
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca sismadora.
Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo
Sentí que à minha porta alguem batia:
Fui ver quem era. Abrí. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E - de cansado - foi rolar dormindo
Como uma pedra, junto do meu leito.
Preguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo
Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante em instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.
Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo - e com furor remamos
Veludo à proa olhava-me choroso
Como o cordeiro no final momento,
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.
Voltei à terra - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas moribundo.
Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei - oh grande dor! - haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
Certo caira além no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah, se Veludo
Duas vidas tivera - duas vidas
Eu arrancaria àquela besta morta
E àquelas vís entranhas corrompidas.
Nisto sentí uivar à minha porta.
Corrí, - abrí... Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés, - e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.
Fôra crível, oh Deus? - Ajoelhado
Junto do cão - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.
Nota da Escada de Jacob:
O meu cão ao contrário dos de Guimarães e Junqueiro, não é revoltado nem imundo. É cão apenas. Acorda, come e dorme em sono profundo sempre que surge ocasião. Outras vezes corre, corre e corre (quase todos os dias) e sem trela, embora esteja sempre de olho e precaução, para saber se o dono está por perto na ocasião não vá perder-se. Àh como gosto do meu cão!
Sunday, February 27, 2011

E agora um poema que não é meu, mas que faz chorar até às lágrimas.
MEMÓRIA
À Minha Mãe
Ao meu Pai
Aquele que partiu no brigue Boa Nova
E na barca Oliveira, anos depois, voltou;
Aquele santo (que é velhinho e já corcova)
Uma vez, uma vez, linda menina amou:
Tempos depois, por uma certa lua nova,
Nasci eu… O velhinho ainda cá ficou,
Mas ela disse: - «Vou, ali adiante, à Cova,
António, e volto já…» - e ainda não voltou!
António é vosso. Tomai lá a vossa obra!
«Só» é o poeta-nato, o lua, o santo, a cobra!
Trouxe-o dum ventre: não fiz mais do que o escrever…
Lede-o e vereis surgir do poente havidas mágoas,
Como quem vê o Sol sumir-se, pelas águas,
E sobe os alcantis para o tornar a ver!
(António Nobre)
Versejar é perder tempo quando não há tempo a perder.
Por exemplo
Ainda agora me atrasei
E falhei
Irremediavelmente e para meu mal
A primeira notícia do telejornal.
Tudo porque estava ingenuamente
Sobre estes versos a preguiçar
Antes estivesse a dormir.
Sim a dormir o tempo não se perde
Nem se perde, por exemplo, o autocarro.
Quando se dorme dorme-se e pronto.
Dormir é uma condição da vida
E pelo menos sonha-se, o que não é mau,
Principalmente quando se sonha com coisas boas.
Agora versejar?
É dormir acordado
E arriscamo-nos todos, neste caso
A dar azo
A que nos digam: - Estás a dormir, ou quê?
Olha que o jantar arrefece.
Não se pode responder a quem tem os pés bem assentes na terra
A quem nos diz que perdemos o telejornal e o autocarro e que a comida arrefece
Porque estávamos a perder tempo a fazer versos.
Ainda se estivesses
A fazer as contas do
Vá lá...
Mas versos?
Olha que também arrefece o chá
Sim também o tal que gostas tantos de tomar
Depois de jantar
Vai dormir João
Gostas mais de sonhar do que de viver.
E foi então
Que nessa ocasião
Eu e o meu cão
Adormecemos.
Ele no sofá
E eu no chão
J.Guedes
Friday, February 25, 2011
E assim me enterrei
Na neve branca com que subitamente me deparei
quando saía de casa.
Tinha cinco anos? Não sei.
Mas a verdade é que feliz de mim me lancei
Como num golpe de cartas nessa vaza
Quando era criança feliz
E se me quebrou a asa
De anjo pequenino.
Afoguei-me, ofeguei-me, cansei-me.
Que coisa instante bela irrepetível
Submergir e depois emergir no meio da neve
Leve.
Que coisa feliz!...
Vós que nasceis
noutros tempos e noutras latitudes
Nunca sabereis
o que foi afogar-me
Na leveza leve da neve
Nesse nevão de criança de mil novecentos e cinquenta e seis.
Tinha cinco anos de idade
E na verdade
Ainda hoje não me lembro bem se foi assim, ou não
Enfim!...
Mas recordo que tinha cinco anos de idade
Isso é atestada autenticidade
Nos registos da meteorologia oficial e da neve profunda
Leve
Que caía sem registos nem vistos
Como a neve
Que livre se reconhece em flocos e cai como deve
Segundo as leis da física
E onde me enterrei e me afoguei e esbracejei
E já lá vão, anos e arcanos
tempos que levamos
Sem saber se foi de facto assim, ou não
Sim! Passaram décadas e anos
Passaram tantos anos!
E assim.
Assim!...
Desses tempos, nascentes
E esmorecentes
Me deportei e departei
Afinal todos, dia a dia, de nós próprios nos zarpamos
de absortos portos.
Do que recordo ao certo já não sei.
Que aborrecimento é esta coisa de passarem os anos.
J. Guedes
Domingo 26 de Dezembro de 2010
O tio Arnaldo trata disso tudo
Como sempre tratou
As lágrimas quedam-se com ele em ângulo agudo
Convergente
Por aqui estou
Presente!
Afirma sem dizer como se fosse um surdo mudo
O Tio Arnaldo quando tudo falta sempre trata de tudo.
Que heroicidade esta de meu irmão
Verter as lágrimas de todos nós
Sozinho
Sublimemente mudo
Num cadinho
De ouro
Besouro
Coerente
Sempre consciente
Sem dizer nada na vida corrente
de todos nós
Trata do que deve como as mós
Dos moinhos antigos sem se dar por elas
Rodam, rodam e alimentam
De farinha bocas que não sabem que têm fome
E a família vive
E a família come
E o mundo gira.
Incoerente informe
E acorda e dorme.
Foram-se os pais, os tios e os avós.
Falta alguém?
Faltamos todos nós
Esmorecem as velas
Mas o Tio Arnaldo não.
Do trabalho obreiro
Pega com uma mão
Uma agonia
E com a outra uma exactidão
Do dia a dia
Sobre todos os chorados mortos temos que sobreviver
A vida é assim que se há-de fazer?
14 Janeiro 2011-01-14
J. Guedes
Pequena variação sobre o poema anterior
O Meu cão realista
Dizem que os cães vêm e pressentem
Serão animais místicos esses cães inventados pela literatura?
O meu não vê nem pressente nada.
Acorda, de madrugada
Brinca cheira, ladra
Abana a cauda
Durante o dia, enquanto o dia dura
E, sem dizer nada
(mal educado, pode dizer-se) pelos padrões do dono
enrosca-se em sono
Bem profundo sono, mal termina
E finda
A ultima jornada.
E fica no abandono
Do seu palácio sofá da sala de jantar
Pronto para acordar
Feliz no dia seguinte.
Às vezes cedendo, eu, ao que se diz
Ser dos cães presciência
Em intervalo de serão
Entre a leitura de um livro e olhadela de soslaio à televisão
E do mundo real em momentânea ausência,
Falo com ele sobre filosofia.
Mas ele abre os grandes olhos pestanudos
Fixa-me e responde que prefere os filósofos mudos
E deixa-se de novo dormir.
Pelo que vejo, quotidianamente,
(ou seja de quando em vez)
O meu cão não vê nem pressente.
Limita-se, a ser ele
Pessoal e com próprio nome mês atrás de mês (já lá vão anos).
Reage, naturalmente, à sede ao frio e à fome
Como qualquer ser vivo
O meu cão
Que encaro sempre como o último dos “moicanos”
Que dorme junto à minha mão
No sofá.
Que não sente nem pressente
Mas àh...!...
Quando um ruído o desperta
Aí vai ele à descoberta
Levanta-se grave
Estica as patas.
Eu, expectante (nessas alturas), olho-o de soslaio
Entendeu alguma manifestação
metafísica de ocasião
Que me escapou?
Terá a doença da velhice e ter-lhe-há dado algum final desmaio?
Não!
Para o meu cão
Não há metafísica, nem sentimentos tolos como depressão
Saudade, ou mágoa
O meu cão
levantou-se,
Espreguiçou-se,
Esgueirou-se pela sala
E foi apenas beber água.
Que filósofo colossal
É sempre nessa repetida ocasião
O meu cão
Que não sente nem pressente
Aliás tem cataratas e já ouve mal
E mal sente
A gente
vizinha que se extravasa
Em ruídos quotidianos.
Interessa-me lá o que se passa fora de casa! (Diz ele)
Já levo tantos anos
De te guardar
Meu dono!
Já bebi a minha água
Deixa-te de imaginar
Quero regressar ao sono
É fora de horas
Vê bem.
Tudo dorme
Apaga a luz e vai dormir também.
J. Guedes
25 Janeiro 2011
Que coisa extraordinária é o meu cão.
Não faz nada.
Dorme, come e cala.
Eu não!
Ou nem sempre talvez...
Comigo é vezes sim, outras não.
Um compromisso de ocasião.
Para o meu cão
Não!
É sempre assim.
Tem sede vai beber
Tem fome
Come
Sou eu que lhe dou
A água e a ração.
E ele nem sequer agradece
A esta minha permanente disponibilidade.
Responde-me ele
(Ou eu próprio a mim).
- A vida é assim! gostas de mim!
E eu, evidentemente dele é verdade.
E é tudo.
Não me dás água e pão por caridade
Dás-me simplesmente
Sem interrogações,
Nem obrigações
Inúteis
Fico com o que queres, ou o que reste (principalmente quando não há dinheiro)
Ossos, ou migalhas, não importa. Não sou, como sabes, interesseiro.
O que interessa é que gostas de mim.
Eu de ti gosto obviamente.
Por isso tens-me por aqui sempre presente
A abanar a cauda e a ladrar sem tino
A recordar-te o tempo em que eras pequenino
Quando não pensavas, verdadeiramente, em nada.
É como se apresenta a vida para nós os dois.
Eu que sou velho e cão
Sou sempre pequenino como tu ainda és.
O Mundo para ti será sempre uma charada.
Para mim não.
Não te esgotes em especulações fúteis
Nem em quês e porquês.
O amor nasce connosco de enxurrada
Mas limpa e aclara as coisas úteis
Quando nas emoções
se intrometem razões urgentes, ou simplesmente é preciso
Estás a ver?
E principalmente as que são fundamentais para viver.
Por muito que tu penses – acrescenta o meu cão -
O Mundo é sempre justo, racional, conciso.
Deus surge inevitavelmente e sempre na ocasião
Para resolver o que é preciso.
Não te preocupes. Não és o meu patrão
És o meu dono e íntimo amigo
As dívidas que não tenho para contigo
Não tas pago sabes bem!
As que tens, com outros deixa lá que outros as pagarão.
Vai dormir. É tarde
Amanhã tens que trabalhar
Eu não
Durmo e acordo quando calha
Como compete a qualquer cão de guarda ou de vigia
Tu, meu dono, não.
Para ti a vida é umas vezes um drama outras uma elegia,
Ou apenas novo dia que se aguarda
E resguarda.
Para mim não
A vida é unicamente o momento exacto
Em que chegas a casa
E brincas comigo
Para mim não existe tempo meu amigo
Tudo se extravasa
Em amor e alegria nesse pequeno acto
De ocasião
Nesse momento de lucubração
O meu cão
Subtil se esgueira para o quarto enquanto visto o pijama
Deita-se de quatro no tapete
E eu na cama.
Encerramos nessa altura a cortina do mundo
Eu e o meu cão anónimos, felizes, caímos os dois em sono profundo.
J. Guedes
25 Janeiro 2011
Monday, January 24, 2011
Eu nas horas vagas e o meu cão filósofo

Dizem que os cães vêm e pressentem
Serão animais místicos esses cães inventados pela literatura?
O meu não vê nem pressente nada.
Acorda, de madrugada
Brinca cheira, ladra abana a cauda
Durante o dia, enquanto o dia dura
E, sem dizer nada
(mal educado, pode dizer-se) pelos padrões do dono
enrosca-se em sono
Bem profundo sono, mal termina mais uma jornada.
E fica no abandono
Do seu palácio sofá da sala de jantar
Pronto para acordar
Feliz no dia seguinte.
Às vezes cedendo, eu, ao que se diz
Ser dos cães presciência
Em intervalo de serão
Entre a leitura de um livro, olhadela à televisão
E do mundo real em momentânea ausência,
Falo com ele sobre filosofia.
Mas ele abre os grandes olhos pestanudos
Fixa-me e responde que prefere os filósofos mudos
E deixa-se de novo dormir.
Pelo que vejo, quotidianamente,
(ou seja de quando em vez)
O meu cão não vê nem pressente.
Limita-se, a ser ele
Pessoal e com próprio nome mês atrás de mes (já lá vão anos).
Reage naturalmente à sede ao frio e à fome
Como qualquer ser vivo
O meu cão
Que dorme junto à minha mão
No sofá.
Que não sente nem pressente
Mas àh...!...
Quando um ruído o desperta
Aí vai ele à descoberta
Levanta-se grave
Estica as patas.
Eu, expectante (nessas alturas), olho-o de soslaio
Entendeu alguma manifestação
metafísica de ocasião
Que me escapou?
Mas não.
Para meu cão
Não há metafísica, nem sentimentos tolos como depressão
Saudade, ou mágoa
O meu cão
levantou-se,
Espreguiçou-se,
Esgueirou-se pela sala
E foi apenas beber água.
Que filósofo colossal
É sempre nessa repetida ocasião
O meu cão
Que não sente nem pressente
Aliás tem cataratas e já ouve mal
E mal sente
A gente
vizinha que se extravasa
Em ruídos quotidianos.
Interessa-me lá o que se passa fora de casa!
Já levo tantos anos
De te guardar
Meu dono!
Já bebi a minha água
Deixa-te de imaginar
Quero regressar ao sono
É fora de horas
Vê bem.
Tudo dorme
Apaga a luz e vai dormir também.
J. Guedes
25 Janeiro 2011
Saturday, January 15, 2011
O meu cão e Guerra Junqueiro
FIEL
(Um poema de Guerra Junqueiro. Conto poético. Reflexão).
Na luz do seu olhar tão lânguido, tão doce,
Havia o que quer que fosse
D’um íntimo desgosto :
Era um cão ordinário, um pobre cão vadio
Que não tinha coleira e não pagava imposto.
Acostumado ao vento e acostumado ao frio,
Percorria de noite os bairros da miséria
À busca dum jantar.
E ao ver surgir da lua a palidez etérea,
O velho cão uivava uma canção funérea,
Triste como a tristeza oceânica do mar.
Quando a chuva era grande e o frio inclemente,
Ele ia-se abrigar às vezes nos portais ;
E mandando-o partir, partia humildemente,
Com a resignação nos olhos virginais.
Era tranquilo e bom como as pombinhas mansas ;
Nunca ladrou dum pobre à capa esfarrapada :
E, como não mordia as tímidas crianças,
As crianças então corriam-no a pedrada.
Uma vez casualmente, um mísero pintor
Um boêmio, um sonhador,
Encontrara na rua o solitário cão ;
O artista era uma alma heróica e desgraçada,
Vivendo numa escura e pobre água furtada,
Onde sobrava o gênio e onde faltava o pão.
Era desses que têm o rubro amor da glória,
O grande amor fatal,
Que umas vezes conduz às pompas da vitória,
E que outras vezes leva ao quarto do hospital.
E ao ver por sobre o lodo o magro cão plebeu,
Disse-lhe : - "O teu destino é quase igual ao meu :
Eu sou como tu és, um proletário roto,
Sem família, sem mãe, sem casa, sem abrigo ;
E quem sabe se em ti, ó velho cão de esgoto,
Eu não irei achar o meu primeiro amigo !..."
No céu azul brilhava a lua etérea e calma ;
E do rafeiro vil no misterioso olhar
Via-se o desespero e ânsia d’uma alma,
Que está encarcerada, e sem poder falar.
O artista soube ler naquele olhar em brasa
A eloqüente mudez dum grande coração ;
E disse-lhe : - "Fiel, partamos para casa :
Tu és o meu amigo, e eu sou o teu irmão. -"
E viveram depois assim por longos anos,
Companheiros leais, heróicos puritanos,
Dividindo igualmente as privações e as dores.
Quando o artista infeliz, exausto e miserável,
Sentia esmorecer o génio inquebrantável
Dos fortes lutadores ;
Quando até lhe acudiu às vezes a lembrança
Partir com uma bala a derradeira esp’rança,
Pôr um ponto final no seu destino atroz ;
Nesse instante do cão os olhos bons, serenos,
Murmura-lhe : - Eu sofro, e a gente sofre menos,
Quando se vê sofrer também alguém por nós.
Mas um dia a Fortuna, a deusa milionária,
Entrou-lhe pelo quarto, e disse alegremente :
"Um génio como tu, vivendo como um pária,
Agrilhoado da fome à lúgubre corrente !
Eu devia fazer-te há muito esta surpresa,
Eu devia ter vindo aqui p’ra te buscar ;
Mas moravas tão alto ! E digo-o com franqueza
Custava-me subir até ao sexto andar.
Acompanha-me ; a glória há de ajoelhar-te aos pés !..."
E foi ; e ao outro dia as bocas das Frinés
Abriram para ele um riso encantador ;
A glória deslumbrante iluminou-lhe a vida
Como bela alvorada esplêndida, nascida
A toques de clarim e a rufos de tambor !
Era feliz. O cão
Dormia na alcatifa à borda do seu leito,
E logo de manhã vinha beijar-lhe a mão,
Ganindo com um ar alegre e satisfeito.
Mas aí ! O dono ingrato, o ingrato companheiro,
Mergulhado em paixões, em gozos, em delícias,
Já pouco tolerava as festivas carícias
Do seu leal rafeiro.
Passou-se mais um tempo ; o cão, o desgraçado,
Já velho e no abandono,
Muitas vezes se viu batido e castigado
Pela simples razão de acompanhar seu dono.
Como andava nojento e lhe caíra o pelo,
Por fim o dono até sentia nojo ao vê-lo,
E mandava fechar-lhe a porta do salão.
Meteram-no depois num frio quarto escuro,
E davam-lhe a jantar um osso branco e duro,
Cuja carne servira aos dentes d’outro cão.
E ele era como um roto, ignóbil assassino,
Condenado à enxovia, aos ferros, às galés :
Se se punha a ganir, chorando o seu destino,
Os criados brutais davam-lhe pontapés.
Corroera-lhe o corpo a negra lepra infame.
Quando exibia ao sol as podridões obscenas,
Poisava-lhe no dorso o causticante enxame
Das moscas das gangrenas.
Até que um dia, enfim, sentindo-se morrer,
Disse "Não morrerei ainda sem o ver ;
A seus pés quero dar meu último gemido..."
Meteu-se-lhe no quarto, assim como um bandido.
E o artista ao entrar viu o rafeiro imundo,
E bradou com violência :
"Ainda por aqui o sórdido animal !
É preciso acabar com tanta impertinência,
Que esta besta está podre, e vai cheirando mal !"
E, pousando-lhe a mão cariciosamente,
Disse-lhe com um ar de muito bom amigo :
"Ó meu pobre Fiel, tão velho e tão doente,
Ainda que te custe anda daí comigo."
E partiram os dois. Tudo estava deserto.
A noite era sombria ; o cais ficava perto ;
E o velho condenado, o pobre lazarento,
Cheio de imensas mágoas
Sentiu junto de si um pressentimento
O fundo soluçar monótono das águas.
Compreendeu enfim! Tinha chegado à beira
Da corrente. E o pintor,
Agarrando uma pedra atou-lh’a na coleira,
Friamente cantando uma canção d’amor.
E o rafeiro sublime, impassível, sereno,
Lançava o grande olhar às negras trevas mudas
Com aquela amargura ideal do Nazareno
Recebendo na face o ósculo de Judas.
Dizia para si : "È o mesmo, pouco importa.
Cumprir o seu desejo é esse o meu dever :
Foi ele que me abriu um dia a sua porta :
Morrerei, se lhe dou com isso algum prazer."
Depois, subitamente
O artista arremessou o cão na água fria.
E ao dar-lhe o pontapé caiu-lhe na corrente
O gorro que trazia
Era uma saudosa, adorada lembrança
Outrora concedida
Pela mais caprichosa e mais gentil criança,
Que amara, como se ama uma só vez na vida.
E ao recolher à casa ele exclamava irado :
"E por causa do cão perdi o meu tesouro !
Andava bem melhor se o tinha envenenado !
Maldito seja o cão! Dava montanhas d’oiro,
Dava a riqueza, a glória, a existência, o futuro,
Para tornar a ver o precioso objecto,
Doce recordação daquele amor tão puro."
E deitou-se nervoso, alucinado, inquieto.
Não podia dormir.
Até nascer da manhã o vivido clarão,
Sentiu bater à porta ! Ergueu-se e foi abrir.
Recuou cheio de espanto : era o Fiel, o cão,
Que voltava arquejante, exânime, encharcado,
A tremer e a uivar no último estertor,
Caindo-lhe da boca, ao tombar fulminado,
O gorro do pintor !